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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Está Tudo Pago

Imagine a anulação de um
documento de cobrança cujo
valor jamais conseguiríamos
pagar... Foi exatamente isso
que Jesus fez por nós ao
morrer na cruz. Seu sacrifício
perfeito substituiu nossas
falhas tentativas de
merecermos o perdão dos
pecados; em troca disso,
apenas o que Ele requer é fé e
obediência de nossa parte.
Colossenses 2:14 - "havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz."

Contexto
- Essa epístola foi escrita provavelmente no ano 61dC., pelo apóstolo Paulo.
- Colossos era uma cidade da Frígia (um distrito da Província da Ásia); ficava a 120 quilômetros de Éfeso. 
- Conforme demonstra Colossenses 1:7 e 4:17, a Igreja que havia ali, possivelmente era pastoreada por Epafras e Arquipo; dois frutos da evangelização de Paulo.
- Nos noventa e cinco versículos dos seus quatro capítulos, seus assuntos principais abordam os problemas do legalismo, a heresia do culto aos anjos e a vida social do cristão.

Mensagem
- Essa "cédula" era um documento que comprovava a existência de uma dívida, quem a possuía tinha direitos de cobrança sobre o devedor. Espiritualmente se refere à Lei Mosaica que com suas 613 ordenanças - 248 positivas e 365 negativas - condenavam o pecador. Agora não seriam mais os rituais que poderiam condenar ou justificar alguém.
Cl 2:8,9 - "Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo; 9porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade."

"Riscar a cédula que nos era contrária" é um termo que se refere ao sacrifício de Cristo na cruz, o qual pagou em nosso lugar por uma dívida constituída pelo pecado, a qual não teríamos jamais condições de pagar. Sua morte na cruz nos deu uma oportunidade de não morrermos por nossos pecados, dando-nos, por meio de nosso arrependimento e mudança de vida, perdão e acesso à sua Graça.
Cl 2:13 - "E, quando vós estáveis mortos nos pecados e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas,"

- O termo "a tirou do meio de nós" significa que se a Lei apontava para a condenação pelo fato de o homem não ter condição de se redimir sendo ele de natureza pecaminosa, a Graça "zerava sua conta" a partir do momento que ele aceitava o fato de que Cristo é o seu Salvador por ter feito o sacrifício perfeito em seu lugar.
Cl 3:1-4 - "Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. 2Pensai nas coisas que são de cima e não nas que são da terra; 3porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. 4Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, também vós vos manifestareis com ele em glória."

- Ao ter "cravado na cruz" representa o valor do seu sangue, o qual carimbou como "pago" toda a nossa dívida pecaminosa, vencendo Ele próprio o inimigo não desistindo de seus sacrifícios pelos pecadores. Assim, durante esse ato, expôs a derrota de Satanás e seus demônios, que sobre os tais a pessoa que recebe a Cristo abandonando o pecado não é mais escrava.
Cl 2:15 - "E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo."

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Parábola do Credor Incompassivo

O perdão, assim como as demais
bênçãos que recebemos de
Deus, servem não para mostrar
o quanto somos justos e
merecedores daquilo que Ele
nos dá, mas sim se temos ou não
o caráter santo de um verdadeiro
cristão que tenha negado a si
mesmo e tomado a sua cruz para
poder segui-lo.
Mateus 18:23-34

Mateus 18:23 - "Por isso, o Reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos;"
    Uma pergunta meio que ingênua de Pedro foi o que motivou Jesus a contar essa parábola: "Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?"; a resposta do Mestre foi bem objetiva: "Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete". Devemos lembrar que na numerologia bíblica o número sete representa perfeição e plenitude, o que significa que o perdão deve ser perfeito e pleno, ou seja, verdadeiro e por completo; multiplicar o sete por setenta parece um exagero, mas representa a misericórdia ilimitada que devemos ter com nosso próximo. Logo no início da parábola Ele cita um rei fazendo prestação de contas com seus servos, isso se refere o Grande Julgamento em que o Senhor vai requerer de nós aquilo que nos devemos, e isso inclui como tratamos os irmãos, os familiares, os amigos e até os inimigos.

Mateus 18:24 - "e, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos."
    Dez mil talentos, numa conta superficial e de resultado aproximado, considerando que um talento valeria cerca de mil dólares, hoje seria em torno de dez milhões de dólares; para qualquer pessoa seria simplesmente impossível pagar. Esse valor aparentemente exagerado na ilustração de Jesus foi exposto propositalmente para nos ensinar que a dívida que temos para com Ele é impossível de ser paga por nós e, assim sendo, somente mesmo o perdão por misericórdia é que pode nos livrar dessa dívida que nos levaria à inevitável condenação. Tudo o que fazemos de errado é um débito a mais em nosso cartão de crédito espiritual e, quando a fatura chegar, perceberemos que nossas boas ações ou intenções não tem poder para diminuir os juros dessa dívida; e o pior ainda é que descobriremos que no nosso cofrinho da religiosidade e da boa aparência não temos um saldo que chegue nem perto desse valor. Então, somente o que resta é apelar pelo perdão do Rei para não termos a condenação como herança de nossa imprudência.

Mateus 18:25 - ", não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher, e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse."
    Pela Lei, a pessoa poderia ser entregue como escrava para o pagamento de uma dívida, e isso poderia ainda incluir sua família. A imprudência do pecado, e até mesmo das dívidas impensadas, podem nos tornar escravos e causar também sofrimentos aos que fazem parte de nosso convívio. Não ter com o que pagar ou não saber lidar com um problema gera consequências negativamente incalculáveis, as quais envolvem questões financeiras, morais, psicológicas, físicas e também espirituais; tudo isso junto, de maneira praticamente inevitável, provoca a desestruturação da família. Esse homem, provavelmente, ao pedir um valor tão alto de empréstimo aos tesoureiros do reino, certamente, só pensou em sua dificuldade ou vontade no momento, mas não analisou o que poderia acontecer no futuro. Tal despreocupação momentânea causou o risco de punição tanto a ele como também à sua família. Em suas decisões você costuma pensar apenas em si próprio ou tem a dignidade de se lembrar que possui uma família?

Mateus 18:26 - "Então, aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei."
    Mesmo estando totalmente errado e sendo uma pessoa imprudente, esse homem nos dá uma lição sobre a importância do arrependimento e a busca do perdão. Jesus o identifica como servo, isso lembra nossa situação diante do Rei, somos simplesmente servos e devemos nos portar de acordo com nossa condição sabendo nos colocar devidamente perante seu trono. Somos prestadores de serviço e não donos do Reino; Ele se prostrou, isso é sinal de humildade, a qual representa o nosso  dever de reconhecimento da superioridade de Quem está acima de nós. Um súdito jamais poderia fazer qualquer gesto que insinuasse grandeza ou mesmo igualdade perante o rei; Reverência, isso significa respeito, é a demonstração fundamental de que sabemos que não somos merecedores de estar aonde estamos. Ocupar lugar de destaque no ministério não nos torna melhores ou superiores, mas apenas portadores de uma maior responsabilidade. Ele implorou por sua generosidade, prometendo que lhe pagaria. Essa é uma atitude que nos leva a entender que o clamor pela misericórdia seguido pela disposição de corrigir o erro ou pelo menos mudar de atitude é essencial para se alcançar o favor divino.

Mateus 18:27 - "Então, o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida."
    Mesmo sendo humano e estando diante de um devedor totalmente errado na situação, aquele rei se compadeceu e, sabendo que o servo, mesmo tendo prometido que lhe pagaria, jamais teria de fato condições de lhe pagar, generosamente perdoou, soltando-lhe e perdoando sua dívida. Nosso clamor surte resultado diante do Rei. Mesmo conhecendo nossa condição de criaturas frágeis diante das tentações do pecado, Ele nos concede nova oportunidade quando nos humilhamos aos seus pés. Ele sabe que não temos condições de pagar nossa imensa dívida e também de nossa tendência a voltar a errar, mas seu amor é maior que nossos instintos pecaminosos e Ele zera nossos débitos para que possamos tentar uma nova vida. Não é o nosso merecimento que o convence, mas a sua própria misericórdia nos presenteia com uma nova chance.

Mateus 18:28 - "Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos que lhe devia cem dinheiros e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves."
    Aqui já podemos ver a hipocrisia no coração do homem. Após ser perdoado e se ver absolutamente livre pelas ruas sem mais nada dever, ele encontra alguém que lhe devia o valor irrisório de cem dinheiros, ou cem denários - algo que hoje seria em torno de vinte dólares -, porém, surpreendentemente, sua reação e atitude foram as piores possíveis: ele foi incompassivo, incompreensivo, ofensivo e agressivo; totalmente o contrário do rei que acabara de lhe perdoar e que tinha razões suficientes para ter agido de forma truculenta. "Paga-me o que deves!", essa é uma expressão que, geralmente, embora seja dita por alguém que tenha por direito receber algo, apenas expõe o egoísmo e a falta de amor e perdão em relação a alguém que lhe cometeu alguma falta. O problema, ma verdade, não está na cobrança em si, mas na forma como ele a fez lançando mão dele e o sufocando, ou seja, de forma desrespeitosa e violenta. Como estamos tratando nossos devedores mesmo sabendo que fomos perdoados não merecendo perdão?

Mateus 18:29 - "Então, o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei."
    Mediante a narração dessa cena paramos para pensar em quanto, muitas vezes, o ser humano é ignorante, insensato, cruel e hipócrita, porque se esquece com facilidade seus erros, seu passado, suas raízes e das boas atitudes alheias que já foram tomadas em relação a ele em momentos de dificuldade e aflição. Talvez você esteja aí pensando: "Ainda bem que eu não ajo dessa forma!", mas você consegue imaginar quantas vezes negou ajuda a alguém necessitado? Hoje mesmo você pode ter feito isso de várias formas: é aquele "bom dia" que você não respondeu, aquela Palavra que te veio ao coração e você não falou, aquela pessoa para quem você disse que ia orar e não orou, aquele pedido de desculpas que você não aceitou, aquele erro que você presenciou e não corrigiu, aquele ferido que você viu caído e não socorreu e também aquele devedor de quem você poderia ter perdoado a dívida e não perdoou. Se não vigiarmos, estamos negando pedidos de ajuda o tempo todo e, ao mesmo tempo, "louvando" a Deus sorridentemente achando que Ele está aplaudindo nossas atitudes.

Mateus 18:30 - "Ele, porém, não quis; antes, foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida."
    Essa negativa a um pedido de prorrogação do prazo para o pagamento da dívida, seguida da entrega à prisão vai muito além dos direitos civis, os quais ele podia usufruir livremente. Direitos legais não podem sobressair às nossas obrigações espirituais e morais; como pessoas justas e, acima de tudo, servos do Rei, devemos muitas vezes abrir mão de alguns direitos. Dar a outra face, deixar a capa e caminhar mais uma milha são preceitos que, ainda que figurados, ainda não foram e nunca serão abolidos do autêntico Evangelho; tudo é lícito, mas nem tudo convém; se o teu irmão se escandaliza pelo que você come, então não coma. Tais princípios permanecem em vigor, pois caracterizam a verdadeira Lei do Reino do qual somos súditos. Em outras palavras, muito se prega e mais ainda se cobra sobre o amor, mas quando se trata de vive-lo, muitos perdem suas máscaras revelando-se na práticas como inimigos da cruz de Cristo. Quantos você já encerrou na prisão hoje por achar que justiça se resume no seu próprio bem-estar?

Mateus 18:31 - "Vendo, pois, os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito e foram declarar ao seu senhor tudo o que se passara."
    O interessante é que ele estava sendo observado, e certamente sabia disso; mas não se importava por achar que o povo consideraria justa aquela atitude. Muitas vezes, enganamos a nós mesmos com nossos falidos conceitos de justiça. Quem presenciou aquela barbárie logo tratou de comunicar o ocorrido ao rei. Como cristãos, que imagem estamos passando aos que nos observam? As pessoas não querem saber se a situação é humanamente justa ou não, o que elas esperam mesmo é ver alguma diferença em nós. O Evangelho que pregamos e os testemunhos do perdão divino que contamos devem se completar com as atitudes que tomamos, não em relação àqueles que são bons para conosco, mas para com aqueles que nos devem, nos ferem, nos maltratam de alguma forma ou simplesmente têm algo contra nós. Nosso testemunho prático pode tanto ganhar como também matar almas, e ainda salvar ou condenar a nós mesmos.

Mateus 18:32 - "Então, o seu senhor, chamando-o à sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste."
    Agora, lá vai ele de novo diante do rei. A posição do monarca era firme e não aceitava justificativas; ele próprio formulou a acusação chamando-o de malvado e lembrando do perdão que o mesmo havia suplicado e alcançado. É interessante frisar que mesmo assim ele o chamou de servo - servo malvado -; isso nos faz refletir que mesmo os que erram ainda podem ser chamados de servos do Rei, mas isso não significa que eles serão justificados, pois muitos naquele Dia vão dizer "Senhor, em seu nome, fiz isso, fiz aquilo", mas resposta que terão é "Apartai-vos de mim vós que praticais a iniquidade". O segredo não é ser servo, mas sim ser servo fiel; e o servo fiel perdoa, pois jamais esquece ou desconsidera o fato de que ele também já necessitou - e ainda pode necessitar - de perdão. Que testemunho o Rei daria agora de você se te levassem para acusá-lo diante dEle?

Mateus 18:33 - "Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti?"
    O rei não se contentou em apenas dar o veredito final. Por seu justo caráter viu ele a necessidade de explicar o porquê de sua decisão, onde estava o erro do servo que se tornou réu. Ele mostrou que sua atitude anterior de perdoar a dívida de dez mil talentos deveria ter sido tomada como exemplo por ele. Quem narra essa parábola é aquEle mesmo que disse "Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração"; mansidão e humildade não são das lições mais fáceis e agradáveis na Escola do Grande Mestre, mas se errar o resultado da equação "setenta vezes sete" não tem como passar na prova final e vai ficar retido num lugar nada agradável onde não tem recuperação. Você já parou pra pensar que muitos infortúnios que você passa podem ser resultados do veredito do Rei que não está muito contente com suas atitudes em relação ao próximo?

Mateus 18:34 - "E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia. 
    Indignado. Assim se resumiu o estado do rei que cumpriu seu papel na execução da justiça. A ordem é que ele fosse entregue aos atormentadores até que pagasse tudo o que devia; será que ele suportou o tormento e conseguiu pagar a dívida? Espiritualmente, podemos interpretar essa sentença em dois sentidos: Primeiro, o Senhor permite que o inimigo nos cause vários tipos de tormento, levando-nos a sofrer ainda em vida para "pagarmos" por nossos erros e assim também reconhecermos nossos pecados e nos arrependermos deles; Segundo, Ele permite ao inimigo ceifar nossa vida levando-nos ao lugar de tormento eterno como castigo pelos nossos pecados devido ao fato de não termos nos arrependido deles, mas lá, por mais que soframos, o pagamento jamais vai resultar em liberdade. Então é melhor "pagarmos" para sermos livres do que pagarmos eternamente as consequências de uma vida de desobediência ao Rei. Como Ele ensina no versículo seguinte, perder a chance de ser perdoado é uma consequência por não perdoar as ofensas que se recebe: "Assim vos fará também meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas".

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Perdoar para ser perdoado

É fácil condenar os outros por suas 
falhas, difícil é reconhecer os 
nossos próprios erros.
    Mt 6:12 - Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. O pecado é uma das barreiras que nos impedem de alcançar as bênçãos divinas (Mq 3:4). Portanto, uma das condições impostas para o homem que quer obter resposta dos céus é alcançar o perdão para as suas falhas. Só que para isso existe uma condição ainda maior: saber perdoar. Pois somente serão perdoados por Deus aqueles que perdoarem os seus ofensores (Mt 6:15). Pedir perdão a Deus sem estar disposto a perdoar aquele que te ofende ou te deve, ou não pedir perdão ao próximo quando você é o culpado, é hipocrisia! Porém, aquele que pede perdão deve estar também disposto a abandonar o pecado e ainda a perdoar aqueles que pecaram contra ele, mesmo que esses não lhe tenham pedido perdão.

Ser perdoado e não saber
perdoar é hipocrisia, e o
castigo é inevitável
    Isso me faz lembrar daquela famosa parábola[1] contada por Jesus sobre o credor[2] incompassivo[3] (Mt 18:23-34): Um cidadão, que certamente deveria ser um empresário da época, devia 10 mil talentos a um rei. Provavelmente essa dívida, que segundo os cálculos de alguns estudiosos, girava por volta de, no mínimo, 20 milhões de reais, já tinha algum tempo e ele nunca nem sequer se preocupou em pelos menos dar satisfação aos contadores do palácio. Porém, vossa majestade, num belo dia resolveu dar uma olhadinha no “caderninho dos pendurados”, viu ali aquela dívida que não era nada pequena e resolveu mandar seus mensageiros “lembrarem” o rapazinho “esquecido”. E, como já era de se esperar, ele não tinha como pagar tudo aquilo, então ao rei pareceu justo aplicar-lhe uma lei que obrigava o devedor e a sua família a se tornarem escravos estando sob o domínio do credor pelo tempo determinado para pagar a dívida - E quantas pessoas nos dias de hoje não são “escravas” de instituições financeiras como por exemplo: bancos, lojas,  financiadoras e agiotas por não terem prudência ao administrar sua renda? -. Era uma pena muito pesada, e somente o que sobrava ao réu era implorar, apelando pelo perdão, e foi isso o que ele fez até alcançar misericórdia do majestoso que não suportando ouvir aquela choradeira toda, desistiu não só de escravizá-los, mas também perdoou-lhe toda a dívida. E agora, todo contente por poder respirar mais aliviado, o devedor perdoado segue de volta  para a sua casa quando derrepente encontra pelo caminho um pobre homem que, provavelmente por suas dificuldades financeiras, não tinha condições de lhe pagar uma modesta dívida de 100 dinheiros (100 denários[4] em algumas versões bíblicas: por volta de no máximo 5 mil reais hoje), e imagina o que foi que ele fez depois de ter aprendido aquela maravilhosa lição sobre perdão: começou a estrangulá-lo e mandou que o prendessem até que pagasse a dívida. Porém, outras pessoas, vendo isso, contaram tudo ao rei que mandou chamar de volta o sujeitinho ganancioso, lhe passou um sermão sobre a sua falta de misericórdia, chamou os verdugos[5] e mandou que lhe trancassem na prisão até que ele pagasse toda a dívida.
A falta de capacidade para
perdoar é uma doença que
endurece o coração e o destrói
    Será que não estamos agindo hipocritamente como esse devedor? Será que temos por Deus e  pelo próximo o mesmo amor que esperamos receber deles? Como seres humanos, de uma forma natural, temos a tendência de sentirmos e lamentarmos mais apenas pelas nossas próprias dores do que pelas dores dos outros, e até quando estamos errados temos sempre uma auto-justificação prontinha para nos defendermos; porém, o mais difícil é entender os erros alheios. O devedor dessa parábola tinha uma dívida que não era nada pequena; mas, certamente, aos seus olhos, isso não deveria ser tão grave assim, afinal de contas, ele deveria ter uma “boa razão” que em seu subconsciente lhe desse motivos para pensar que não estivesse tão errado assim a ponto de não ter ido se explicar com seu credor antes que ele fosse lhe cobrar. Quantas vezes o ser humano não se acomoda com os seus pecados diante de Deus contando com a sua infinita misericórdia? Porém aí ele se esquece de uma coisa muito importante: Deus é misericordioso, mas também é justo; e em sua justiça, por mais que ame o pecador, Ele não tolera o pecado (Nm 14:18). Então, quando se dá conta disso, ele se prostra diante do Senhor, chora, lamenta, se humilha e demonstra arrependimento até alcançar o perdão; mas será que isso significa que ele está disposto a abandonar o pecado (Pr 28:13)? E é a mesma coisa quando o seu erro é contra o próximo: ele chora, lamenta, se humilha e demonstra arrependimento até alcançar o perdão; mas será que está mesmo disposto a não errar mais (Mt 23:28)?
Pedir perdão é fácil, o
difícil é conseguir perdoar
    A sinceridade de um servo de Deus é conhecida não quando ele precisa pedir perdão, mas sim quando ele precisa perdoar alguém. O rei dessa parábola, juntamente com as pessoas ao seu lado naquela ocasião, certamente ficaram bastante comovidos diante da súplica daquele homem e acreditaram na sinceridade de seu emocionante pedido de perdão; porém, a sua verdadeira personalidade foi revelada depois: fora da presença do rei. Mas o rei ficou sabendo e aplicou-lhe a pena com todo o rigor da lei. Assim, da mesma forma, o nosso Rei Celestial que tudo sabe e tudo vê, não permite ao pecador que não se arrepende verdadeiramente escapar impune da justiça divina que é o tormento do fogo eterno, ou simplesmente, o inferno. Pois é para lá que irão todos os rancorosos, maldizentes, devassos[6], idólatras, adúlteros, efeminados[7], ladrões, avarentos[8], alcoólatras, incrédulos, homicidas, feiticeiros, mentirosos e, entre muitos outros também, os amantes do pecado, conforme diz a Palavra de Deus (Mt 5:22[9] [10] [11]; Tg 3:6; 1ª Co 6:10; Ap 21:8; 22:15). Já imaginou perder a sua salvação simplesmente por não perdoar alguém? Isso parece ser exagero? Pois a Bíblia é bem clara quando diz que o caminho e a porta da vida - da vida eterna - são estreitos e poucos são os que a encontrarão (Mt 7:13,14). Diante de tudo isso, como fazer para agradar a Deus então? A resposta é bem simples: devemos tratar o próximo da mesma maneira que gostaríamos de ser tratados por ele (Mt 7:12). A tendência natural do ser humano quando, por exemplo, se depara diante da notícia de que alguém cometeu um crime ou um grave erro que venha a resultar em algum tipo de prejuízo é condenar, desejar o mal e, se possível, praticar “justiça” com as próprias mãos. Portanto, para essas pessoas que sempre se deixam levar pelo sentimento de revolta, só tenho uma pergunta a fazer: nenhum ser humano é perfeito, e se fosse você ou alguém que você ama que tivesse cometido esse erro? Também não gostaria de ser perdoado ou que perdoassem aquele que você não quer ver sofrer? Isso é muito mais sério do que parece, porque só alcançarão o perdão divino aqueles que, além de se arrependerem sinceramente de seus pecados, também perdoarem verdadeiramente o seu próximo independentemente da gravidade da ofensa que dele tenha recebido (Mt 18:21,22). Somente alguém que ora com um coração arrependido e disposto a perdoar pode alcançar seus objetivos diante de Deus.



[1]Parábola: Originária do grego parabole, significa narrativa curta ou apólogo, muitas vezes erroneamente definida também como fábula. Sua característica é ser protagonizada por seres humanos e possuir sempre uma razão moral que pode ser tanto implícita como explícita. Ao longo dos tempos vem sendo utilizada para ilustrar lições de ética por vias simbólicas ou indiretas. Narração figurativa na qual, por meio de comparação, o conjunto dos elementos evoca outras realidades, tanto fantásticas, quando reais. Eram as histórias geralmente extraídas da vida cotidiana utilizadas por Jesus Cristo para ensinar aos seus discípulos. Segundo Marcos 4:11-12, eram utilizadas por Jesus para que somente seus discípulos as entendessem plenamente. Este gênero já era utilizado por muitos dos antigos profetas.
[2]Credor: Pessoa a quem se deve dinheiro (Mt 18:23-34).
[3]Incompassivo: Quem não tem compaixão.
[4]Denário: (denarius, em latim, plural denarii). Uma pequena moeda de prata que era a de maior circulação no Império Romano. Correspondia ao salário diário de um trabalhador. Mesmo após a sua extinção, o denário continuou a servir de unidade de conta no Império Romano. Posteriormente, diversos países adotaram o termo "denário" (ou uma variação) para designar as suas moedas nacionais, como o denier francês e o dinar, usado em países árabes. A própria palavra dinheiro, em português (e dinero, em espanhol), vem do latim denarius.
[5]Verdugo: Carrasco, algoz ou verdugo são nomes dados ao funcionário encarregado do castigo ou da execução de uma sentença de pena de morte. No caso do enforcamento, por exemplo, é o carrasco quem empurra o condenado para que ele morra pendurado. A figura do carrasco encapuzado tomou ares míticos e assustadores durante a Idade Média, onde as execuções aconteciam com frequência.
[6]Devasso: Depravado, indecente, pervertido, imoral, degenerado, corrompido, corrupto. Aquele que abusa da liberdade.
[7]Efeminado: Caracterizado por qualidades mais próprias a mulheres do que a homens. Que tem modos de mulher. Ex­cessivamente delicado; mole. Homossexual.
[8]Avarento: Que tem avareza. Que não dá; parco. Que guarda ciosamente; ciumento, zeloso. Mesquinho, miserável. Estéril, sáfaro. Indivíduo sordidamente apegado ao dinheiro; sovina, harpagão.
[9]Encolerizar: Enfurecer, zangar, irritar.
[10]Raca: Palavra aramaica que quer dizer: "Você não presta!"
[11]Sinédrio: O mais alto tribunal religioso dos judeus, do qual faziam parte os sumos sacerdotes (o atual e os anteriores), chefes religiosos (anciãos) e professores da Lei. Tinha 71 membros, incluindo o presidente (Jo 11:47).

Jonas M. Olímpio