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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Até que Ponto um Cristão Deve se Envolver com o Sistema Político do País?

Votar ou não votar, não é essa a
questão; afinal, votando ou não,
você tem o dever de ser um bom
cidadão e o direito de fazer valer
aquilo que é obrigação do
Estado. A questão maior que
envolve os cristãos é qual deve
ser sua postura, ou seja, o seu
grau de envolvimento com o
sistema político.
    “Sou de esquerda[1] porque o Evangelho é liberdade!”; “Sou de direita[2] porque a Bíblia é conservadora!”; “Sou governista porque a Palavra ensina que devemos respeitar as autoridades!”; “Sou oposição porque Cristo disse que esse mundo jaz no maligno!”; “Sou neutro porque sou cidadão dos céus!”. Quem nunca ouviu e também nunca repetiu alguma - ou algumas - dessas frases? O poder e a influência política estão cada vez mais presentes na vida dos cristãos, tendo chegado ao ponto de interferir diretamente na Igreja... Ou é a Igreja que está interferindo na política? Políticos nos púlpitos e pastores nos palanques; indução de líderes ministeriais em relação aos votos dos fiéis e participação aberta dos crentes na implantação de leis. No exercício do sufrágio[3], até que ponto devemos ou podemos nos envolver nas questões do Estado, considerando-se que, como cristãos, somos peregrinos[4] na terra (Sl 119:19)? Façamos então uma imparcial análise bíblica para chegarmos a uma conclusão racional - e espiritual - sobre liberdade, conservadorismo, obediência, oposição e neutralidade do cidadão evangélico em relação ao poder público considerando também que a legitimidade da organização política é reconhecida por Deus desde o início (Êx 20:1-17; Dt 16:18-20) e praticada por Jesus (Mt 22:17-21).
    Uma das maiores preocupações em relação ao cenário político é o desrespeito ou mesmo a destruição dos valores da família tradicional, em nome de uma liberdade que desvaloriza totalmente tudo aquilo o que os princípios cristãos ensinam. Dentro desse panorama, há também evangélicos que que acreditam ser radicalismo religioso se opor a isso, pois o avanço cultural e social pede mudança de postura e o cenário atual nada tem a ver com a situação dos tempos bíblicos. Em partes, é mesmo necessário que se compreenda a questão das mudanças em relação a tempos e lugares, porém, algo de maior importância a se considerar é o fato de que Deus não mudou, o que significa que, embora em situações diferentes, seus princípios não mudaram (Tg 1:16,17; Hb 13:8). O liberalismo excessivo propõe o apoio às leis que defendam atos como, por exemplo, o aborto, o “casamento” de pessoas do mesmo sexo e o feminismo. É errado isso? Se para você não houver nada demais em interromper uma vida antes mesmo dela nascer (Êx 21:22,23; Sl 139:16; 1ª Co 3:16,17), assim também como a união conjugal entre dois homens e duas mulheres (Gn 2:18-24; Lv 18:22; 20:13; Rm 1:26,27; 1ª Co 6:9-11; 1ª Tm 4:3), e ainda o domínio da mulher em questões que, por natureza, competem ao homem (Gn 2:22,23; 1ª Tm 2:11-13; 1ª Co 11:8,9; Ef 5:22-24; Cl 3:18; Tt 2:3-5; 1ª Pe 3:1-5), então não há nada de errado não; é só extremismo religioso mesmo (2ª Tm 4:3). Uma das características desse grupo é o comunismo[5]; Cristo era comunista (Lc 12:14,15)? Você já parou pra pensar no que realmente consiste a liberdade em Cristo (Rm 6:22,23)?
    Outro grupo que muito preocupa é o que defende radicalmente o conservadorismo. Estes são defensores intolerantes dos direitos tradicionais que propõem a defesa dos valores - ou do que eles consideram como valores - tradicionais a todo custo. Qual é o problema disso? Estes costumam defender medidas extremas como, por exemplo, a pena de morte, a liberação de armas de fogo para a população e o autoritarismo, isso além de não respeitarem grupos minoritários (homossexuais, presidiários, religiosos não-cristãos, estrangeiros, etc.); e pensam que Direitos Humanos é defesa de bandidos. Mas isso é problema? A Quem pertence o direito à vida (Gn 2:7; Ec 12:7)? E o que a Bíblia quer dizer quando fala sobre perdoar os inimigos e a acepção de pessoas (Mt 5:43-47; Tg 2:8,9[6])? Sim! A Bíblia fala mesmo sobre a espada da lei que justamente fere os que desobedecem, mas isso é uma carta branca para que julguemos e determinemos a morte de alguém (Mt 26:52; Rm 13:1-6[7]; Rm 12:18-21)? Defendem também o individualismo - o contrário do comunismo -; Cristo era individualista (Lc 9:12-17)? O extremismo na defesa de direitos individuais demonstra, na prática, ser tão perigoso quanto a criminalidade em si (Pr 28:16; Ez 22:12).
    Outro problema muito sério do cristão-cidadão em relação à política é a prática do governismo, ou seja, a defesa do governo sem considerar se ele está governando de acordo com os princípios que possam ser tolerados pelo cristianismo ou não. São pessoas do tipo: “Não critique, não reclame, não questione, não fale porque rebelião é pecado!” De fato, as Sagradas Escrituras nos ensinam que devemos ser obedientes às autoridades (1ª Pe 2:13); porém, nos alertam também que não podemos compactuar com aquilo que venha a ferir os princípios sagrados determinados por Deus (Tg 1:27), dentre os quais está incluída a luta contra a corrupção, o que envolve a defesa da prática da honestidade (2ª Co 8:21; Fp 4:8; 1ª Pe 2:11,12), do combate à pobreza (At 6:1-3; 1ª Tm 6:17-19), da luta pela decência moral (Tt 2:7,8), da acessibilidade à educação (Pr 1:2-6), enfim, do exercício dos direitos iguais (Ec 5:9-11). Obedecer ao homem é necessário, desde que suas leis não desrespeitem às leis divinas (At 5:28,29).
    Outro perigo é o oposicionismo. Defender as leis divinas não significa tentar se isolar como se não vivêssemos nesse mundo (Jo 17:15,16); afinal, nossa “cidadania cristã” (Fp 3:20) não nos torna seres sobrenaturais, mas apenas pessoas comuns que creem e vivem o sobrenatural (Fp 3:21; Lc 10:17-20). O pensamento oposicionista tende a tornar o cristão uma pessoa insociável[8] que vê o pecado - ou o Diabo - em tudo e não consegue diferenciar entre o certo e o errado sem generalizar cada situação. É daí que nascem várias teorias conspiratórias[9], as quais, quase que generalizadamente, se resumem em pregar a existência do paganismo[10] em todas as ações dos governos ou pessoas e empresas ligadas à ele. Mas, qual é o problema nisso? O grande problema nisso é que em vez de simplesmente ajudar a alertar a população contra a corrupção governamental, acaba é incitando o povo contra as autoridades por meio da criação de revolta e pânico, podendo gerar protestos que por muitas vezes terminam em atos violentos: verdadeiros atos de rebelião. Assim sendo, devemos então concordar com o “domínio maligno do poder”? Obviamente que não! Porém, essa é uma luta que começa no campo espiritual (Ef 6:11,12) e é travada a nível individual (Ef 6:13), pois se o mundo jaz no maligno (1ª Jo 5:19), o que podemos fazer é viver cada um com sua fé buscando para si próprio uma vida tranquila em meio à tanta turbulência (1ª Jo 5:8,9); é claro que temos que pregar a paz, mas fazemos isso tendo consciência de que nem todos darão ouvidos à voz de Deus (2ª Tm 3:1-5).
    É também comum nos depararmos com o grupo “Tanto fez, tanto faz! Minha participação não vai mudar nada mesmo!”. O neutralismo demonstra, na prática, um conformismo com tudo, o qual faz a pessoa achar que não pode ou não deve interferir em nada porque essa é a vontade de Deus; mas a Bíblia ensina o contrário, né? Pois, mesmo não aprovando, Ele permite que o homem faça escolhas (1º Sm 8:4-10,17-20). Não há, logicamente, a necessidade de nos engajarmos em causas políticas e fazer disso a nossa razão de viver, mas isso também não significa que devamos cruzar os braços e fingir que não estamos vendo nada. As Escrituras são claras ao afirmar que a omissão é um pecado (Tg 4:17). Isso significa que enquanto vivemos aqui somos parte desse mundo e devemos sim de alguma maneira tentar torna-lo um lugar melhor para se viver. Afinal, quem é capaz de ficar num ambiente sujo sem pelo menos pegar uma flanela e tirar nem que seja o pozinho do lugar aonde está sentado? O envolvimento possui vários níveis ou dimensões, mas é impossível a um ser humano em seu perfeito juízo não se envolver socialmente, mesmo que seja contribuindo simplesmente com suas opiniões, fazendo críticas ou comentários que, ao ser ver, sejam construtivas para a melhoria do ambiente em que vive. Se envolver socialmente é também uma forma de amar ao próximo (Lv 23:22). Certamente que confiar no homem não é tarefa fácil, mas precisamos avaliar, discernir e julgar (1ª Ts 5:21; Mt 7:16,17).
    Socialmente falando, o cristão possui uma missão a cumprir, a qual não o permite excluir-se politicamente. O que se deve é ter um grande cuidado para não tornar-se adepto ao partidarismo[11], pois nosso compromisso não é com partido e nem com seus representantes, mas com a verdade. Quando votamos ou nos candidatamos, assumimos compromisso com toda a sociedade, mediante à prática dos valores ensinados pela Palavra de Deus (Mt 5:16), cuidando para que devidamente se exerça nossos direitos garantidos pelo Estado Laico[12]. Religião e política sempre caminharam lado a lado desde o princípio, pois quando o povo israelita passou a peregrinar pelo deserto, Ele estabeleceu regras de convívio social e, ao longo da história, muitas são as passagens bíblicas que mostram profetas nos palácios orientando os reis (2º Rs 3:10-12; Jr 37:3,4); o próprio Jesus expressou sua insatisfação sobre a liderança política que o perseguia (Lc 13:31,32[13] [14]). É claro que isso também tem o seu lado negativo, pois essa mistura também tem sido a razão de vários conflitos e morte, mas isso é culpa do próprio ser humano ao usar o nome de Deus em sua ganância por poder. Nesse caso há a necessidade de se usar a política para se combater os maus políticos, e isso se dá por meio da prévia análise antes de ceder seu voto ou apoio e filiação a determinado partido ou candidato. O mito de que todo político é ladrão é falso, totalmente discriminatório, pois há sim ainda pessoas bem intencionadas que não se deixaram contaminar pela podridão do sistema. De fato é sim muito difícil saber quem é quem, mas como verdadeiros crentes temos a obrigação de seguir a regra mais básica na escolha política: discernimento espiritual e racional - oração e análise bíblica dos projetos -. Outro ponto importante a se observar aí é a questão perigo da transformação de púlpitos e palanques e vice-versa, pois nessa mistura muitos se deixam enganar, e vários líderes ministeriais acabam cometendo um erro gravíssimo: a imposição do voto de cabresto[15], assim transformando os fiéis em meros objetos para a eleição de seus candidatos, classificando-os como rebeldes se assim não os obedecerem; mas a Bíblia também fala sobre esse tipo de atitude (2ª Pe 2:3). Concluindo, não importa qual seja seu nível de envolvimento político, mas faça isso com a consciência limpa estando ciente de que está fazendo - ou tentando fazer - o que é melhor para a Igreja, a sociedade, a sua família e a si próprio. Fazendo o bem ao próximo, o estamos fazendo ao próprio Deus (Mt 25:35-45). E o principal de tudo é: confiemos primeiramente em Deus e não no homem (Nm 23:19; Sl 20:7).


[1]Esquerda: Politicamente falando, esse termo foi criado durante a Revolução Francesa (1789 - 1799), referindo-se ao lado do parlamento em que os políticos se sentavam. À esquerda se sentavam aqueles que defendiam uma maior igualdade social: aqueles que representavam as classes menos favorecidas.
[2]Direita: Politicamente falando, esse termo foi criado durante a Revolução Francesa (1789 - 1799), referindo-se ao lado do parlamento em que os políticos se sentavam. À direita se sentavam aqueles que defendiam direitos mais favoráveis à elite social ou interesses individuais.
[3]Sufrágio: Processo de escolha por votação; Eleição. Voto em uma eleição.
[4]Peregrino: Aquele que peregrina. O que empreende longas viagens, ficando em vários lugares por determinado período de tempo sem poder ser considerado morador dos mesmos.
[5]Comunismo: Do latim communis (comum, universal), sua característica é uma ideologia política e socioeconômica, que visa estabelecer uma sociedade igualitária em que não haja classes sociais diferenciadas, que seja apátrida (sem nacionalidade), baseada na propriedade comum dos meios de produção.
[6]Redarguido: Repreendido, replicado, respondido.
[7]Magistrado: Autoridade pública.
[8]Insociável: O que foge ao convívio social; misantropo, solitário, retraído. De difícil convivência; intratável, incômodo, importuno.
[9]Teoria Conspiratória: Teoria da conspiração se refere à forma de se entender ou se explicar qualquer coisa, tendo como "certeza" o fato de que sua origem é secreta e parte de um plano conspiratório. Essas teorias são uma tentativa de explicar algo que não tenha explicação, ou argumentar que a explicação oficialmente declarada não condiz com a verdade.
[10]Paganismo: Conjunto dos não batizados; gentilidade, gentilismo. Religião em que se cultuam muitos deuses; etnicismo, gentilidade, gentilismo, politeísmo.
[11]Partidarismo: Fanatismo partidário; facciosismo político. Aquele que defende a bandeira de um partido ou um representante político em vez situações em particular.
[12]Laico: Secularidade; secular. Que não tem religião definida; sem religião. É um conceito que denota a ausência de envolvimento religioso em assuntos governamentais.
[13]Fariseus: Em hebraico significa “separados”. Judeus devotos ao Pentateuco. Participavam das reuniões legislativas da sinagoga. Formavam um grupo de fanáticos e hipócritas (o que não era o caso de todos, pois haviam exceções, como era o caso de Gamaliel que defendeu os apóstolos que estavam presos por pregarem a Palavra (At 5:34-38)) que se opuseram duramente contra Jesus Cristo. Segundo a história, nessa época, eles eram aproximadamente 6 mil pessoas.
[14]Herodes: Nome comum de vários reis Idumeus que governaram a Palestina de 37 a.C. até 70 dC. 1- Herodes, o Grande (37 a 4 a.C.), construiu Cesaréia, reconstruiu o Templo e mandou matar as criancinhas em Belém (Mt 2:1-18). Quando morreu, o seu reino foi dividido entre os seus três filhos: Arquelau, Antipas e Filipe. 2- Arquelau governou a Judéia, Samaria e Iduméia de 4 a.C. a 6 d.C. (Mt 2:22). 3- Herodes Antipas governou a Galiléia e a Peréia de 4 a.C. a 39 d.C. Foi ele quem mandou matar João Batista (Mt 14:1-12). Jesus o chamou de "raposa" (Lc 13:32). 4- Filipe, Tetrarca (rei que governava a quarta parte de um reino) que governou bem, de 4 aC. a 34 d.C., a região que ficava a nordeste do lago da Galiléia, isto é, Ituréia, Gaulanites, Batanéia, Traconites e Auranites (Lc 3:1). 5-Herodes Agripa I governou, de 41 a 44 d.C., toda a Palestina, como havia feito Herodes, o Grande, seu avô. Esse Agripa mandou matar Tiago (At 12:1-23). 6- Herodes Agripa II governou o mesmo território que Filipe havia governado (50-70 d.C.). Paulo compareceu perante esse Agripa (At 25:13-26:32).
[15]Voto de Cabresto: Sistema tradicional de controle de poder político através do abuso de autoridade, compra de votos ou utilização da máquina pública. Prática muito comum nos meios mais pobres. Nas igrejas, as vezes é praticado por alguns pastores que coagem seus membros a votarem em determinados candidatos, alegando que os que assim não fizerem estão em desobediência; dessa forma, chegam até mesmo a proibir que fiéis que não tenham sido escolhidos pela administração ministerial se candidatem a cargos políticos para não atrapalharem seus representantes.

sábado, 19 de setembro de 2015

Usos e Costumes: Uma Doutrina do Homem ou de Deus?

É preciso ter muito equilíbrio
para definir o que é doutrina de
Deus e o que é costume do
homem para não tirar a
liberdade que nos é dada por
natureza e nem ofender a santa
natureza divina. O princípio
básico para isso é: "O que eu
faço ou deixo de fazer está ou
não agradando a Ele?"
    Diante de tantas polêmicas no meio cristão, essa é uma das que mais têm se destacado nos “ringues ministeriais”. De um lado, com muito peso, os mais tradicionais defendendo uma postura muitas vezes até radical dos fiéis e, de outro, aparentemente com bastante agilidade, os mais liberais apoiando mudanças, algumas até extravagantes na conduta dos mesmos. O que torna essa briga mais difícil é que todos usam a mesma arma: a Bíblia. Sendo assim, como juíza dessa luta, a quem ela declara como vencedor? Se a analisarmos cuidadosamente, ambos estão empatados e, mesmo longe da vitória, também não estão completamente errados. Não! Eu não estou procurando um jeito de ficar em cima do muro e agradar a todos! Estou apenas conseguindo enxergar que há exageros dos dois lados, enquanto que a Palavra de Deus exige de nós equilíbrio (Ec 7:16,17). Para prosseguir, não há como entendermos se o controle da igreja sobre a conduta pessoal de seus membros no que se refere às vestimentas, ao vocabulário e à própria visão sobre o mundo são legítimas ou não sem antes sabermos o significado da palavra doutrina.
    Segundo os dicionários da língua portuguesa, resumidamente, doutrina é o conjunto das ideias básicas contidas num sistema filosófico, político, religioso, econômico, etc.; um conjunto de princípios que servem de base para a definição de regras que, de certa forma, funcionam como lei em um determinado grupo de convívio. No que se refere à religião, principalmente no cristianismo, é a organização de um regulamento interno com dogmas[1] que definem um padrão de comportamento que valorize a ordem, a moral e os bons costumes perante a família, a Igreja e a sociedade como um todo de modo agradável a Deus, tendo como fundamento as escrituras por elas consideradas sagradas. Assim sendo, espera-se que todos os ensinamentos de uma igreja evangélica referentes à postura pessoal de seus frequentadores sejam fundamentados pela Bíblia. No entanto, é aí que começa um grande problema: a interpretação do Livro Sagrado depende de muito discernimento tanto espiritual quanto intelectual, e se não houver equilíbrio entre os dois, o resultado pode ser catastrófico. Pois o que temos visto, principalmente de uns tempos atrás, são comportamentos bizarros e até intolerantes por parte de muitos que pensam estar agradando ao Senhor agindo radicalmente (Cl 2:16-23), e também atitudes extremamente liberais que chegam a ser intoleráveis porque provocam escândalo ao Evangelho (Cl 2:8[2] [3] [4]).
    Os líderes mais tradicionalistas costumam associar doutrina ao autoritarismo como forma de manter controle sobre o povo, como se isso significasse santificação e tivesse ligação direta à conduta de acordo com o que eles ensinam como sendo determinações divinas; mas não é isso que as Escrituras ensinam: o termo traduzido em português como doutrina aparece 50 vezes na Bíblia, sendo 8 vezes no Antigo Testamento e 42 no Novo. Vejamos seus significados:
v Do hebraico basar, significando trazer novidades, dar notícia, publicar, pregar, anunciar; como, por exemplo, em 1º Samuel 4:17; 2º Samuel 1:20; Salmos 40:9 e Isaías 52:17.
v Do hebraico lecach, significando ensinamento, ensino, percepção, instrução, persuasão; como, por exemplo, em Deuteronômio 32:2, Jó 11:4, Provérbios 1:5 e Isaías 29:24.
v Do hebraico yacar, significando castigar, disciplinar, instruir, admoestar, corrigir; como, por exemplo, em Levítico 26:18, Deuteronômio 4:36, Provérbios 9:7 e Ezequiel 23:48.
v Do hebraico yarah, significando dirigir, ensinar, instruir, encaminhar, mostrar; como, por exemplo, em Gênesis 46:28, Êxodo 15:25, Deuteronômio 17:10, Salmos 27:11.
    Como pudemos constatar, realmente, doutrina possui, em alguns casos, o sentido de castigo ou correção; porém, na maioria das aplicações, essa expressão se refere a anunciar, pregar, mostrar ou ensinar. É óbvio que tudo isso consiste sim em ter uma conduta agradável a Deus, mas em toda a Bíblia, principalmente no Novo Testamento, não encontraremos nenhuma lista de regras concernentes a poder ou não usar isso ou aquilo, muito pelo contrário: se somos espirituais, nossa consciência é controlada pelo Espírito Santo (1ª Jo 3:20,21). No entanto, nos ensina também a obedecer nossos líderes (Hb 13:17,7), e é aí que muitos se perdem.
    No tocante às vestes, as ordens divinas que encontramos aparecem inseridas na Lei Mosaica[5] e se referem a homem não usar roupas de mulher e vice-versa (Dt 22:5), mostrando uma reprovação de Deus a qualquer ato que possa pelo menos insinuar uma condição de homossexualismo, e claras determinações contra a nudez (Êx 20:26; Gn 9:21-23), o que podemos entender também como uma alusão à sensualidade[6], o que, além de escândalo e desvalorização da própria pessoa, também pode provocar outros à prática do pecado tanto pela cobiça sexual quanto pelo incentivo aos demais a andarem da mesma forma. Como bem sabemos, a antiga Lei foi entregue aos israelitas e não temos que seguir à risca uma “constituição[7]” que foi feita para uma nação específica de acordo com a sua situação daquele momento; porém, bem sabemos também que a Palavra do Senhor é imutável e que devemos não aplicar o modo de viver do povo de Israel em nossa vida, mas sim respeitar os princípios morais ensinados nos mandamentos, os quais se confirmam na Nova Aliança (Ap 3:18).
    Mas o problema aí está no entendimento no momento da aplicação, pois os tradicionalistas acertam em seu cuidado com o corpo, o qual é templo do Espírito Santo (1ª Co 6:12-20), e aí temos que concordar que, principalmente no caso das mulheres, roupas demasiadamente apertadas, curtas ou transparentes desonram a Deus que não as criou para mostrar sua intimidade à homens que não sejam seus maridos, mas os mesmos radicalizam em estipular determinados tipos de roupa como pecaminosas. Por exemplo: dizem que uma mulher não pode usar calças compridas porque isso é roupa de homem, no entanto, se dermos para alguns desses senhores uma calça feminina, prontamente recusarão dizendo ser isso uma calça de mulher. E agora? De repente ela deixou de ser roupa de homem, mas também não pode ser usada porque é roupa de mulher? Ou seria o contrário? Essa conclusão parece, no mínimo, incoerente, não é mesmo? Continuando a lista de proibições, mencionam os adornos - colares, pulseiras, brincos: enfim, os penduricalhos de modo geral -, e, de fato, a Bíblia também fala disso (1ª Tm 2:9,10[8]); porém, referindo-se aos excessos porque isso representa orgulho e soberba, e também porque enfeites em exagero era uma característica própria das prostitutas, e havia ainda a questão da idolatria, a qual também era manifesta por meio de muitos desses ornamentos; mas não os proíbe por completo, o que significa que simples colares, pulseiras ou brincos de tamanho ou conteúdo moderados que não expressem falta de modéstia e nem permitam confundi-las com mulheres vulgares, e nem contenham imagem idólatras, não levarão ninguém à condenação. Convenhamos também que as saias e as maquiagens de algumas senhoras sacrossantíssimas até dentro da igreja provocam mais escândalos e desejos imorais nos homens do que calças bem ajustadas - não justas - que não definam o corpo e nem mostram as pernas. Da mesma forma aos homens: não há mandamentos bíblicos que os proíbam de usar bermudas, camisetas regatas ou demais roupas esportivas, ou mesmo deixar a barba crescer, desde que saibam se portar devidamente como cristãos, é claro (1ª Pe 3:3-5[9]).
    O problema da maioria dos ortodoxos[10] atuais é que as “doutrinas” de suas igrejas foram implantadas ainda nas primeiras décadas do século XX. Naquela época, determinados tipos de roupa eram comuns até mesmo na sociedade secular[11], então, as denominações evangélicas que surgiram, nada mais fizeram do que se adequar ao padrão de comportamento daquele período em cada país que chegavam. Com o tempo, as tendências de moda foram mudando e o próprio mundo deixou de ter um comportamento que fosse totalmente aceitável pelo padrão cristão. Devido a isso, houve uma necessidade de que os líderes se preocupassem em manter a diferença não permitindo aos seus liderados uma postura que ferisse os bons costumes ensinados na Palavra. Só que muitos se excederam nesse cuidado não tendo discernimento para entender que a Igreja pode sim acompanhar a modernidade até o ponto que esta não fira a moralidade (Jo 17:15-17; At 5:28,29), pois nem tudo é indecente desde que saibamos a diferença entre o certo e o errado. Uma visão limitada transformou alguns pastores em ditadores, os quais “transformaram” as regras antigas em lei e praticamente as classificaram como sagradas. Tais equívocos de interpretação os levavam - e ainda levam alguns - a expor membros de suas denominações ao constrangimento aplicando-lhes disciplina[12] por atos tão simples, pelos quais muitos não aguentaram e saíram da igreja sentindo-se incompreendidos e injustiçados, principalmente quando conhecem o conteúdo bíblico (At 15:28,29[13]); e não nos esqueçamos também que o conteúdo bíblico alerta a nos abstermos da fornicação, a qual também pode ser estimulada pelo tipo de roupa que se usa.
    Sem dúvida nenhuma, a liderança da igreja é sim instituída por Deus (Ef 4:10-12) e deve realmente ser obedecida. Além do mais, o que muitos não entendem é que, embora haja alguns equívocos de interpretação e exageros no rigor de sua aplicação, a intenção da maioria dos pastores não é abusar da autoridade, mas sim zelar pelas almas das ovelhas, pois acreditam que assim estão garantindo sua segurança na caminhada até o céu. E, de fato, ainda que tais exigências não sejam mandamentos divinos, quem os obedecer nada estará perdendo com isso. Aos que não concordam, o meio mais racional de lidar com a situação é escolher uma denominação de acordo com aquilo que ache mais justo para não viver em murmuração, assim estando em pecado de rebeldia (Am 3:3; 1ª Sm 15:23; At 15:37-41).
    Não estou aqui me posicionando contra e nem a favor a isso ou aquilo, mas apenas deixando claro que o importante é sabermos muitas das exigências que fazem parte do regulamento interno da maioria das igrejas não se trata de santificação, mas de uma postura adotada por sua liderança que acredita ser essa uma forma de agradar ao Senhor. Se você muitas vezes aceita trabalhar com um uniforme imposto por sua empresa, o qual você acha ridículo ou inadequado, e nem por isso pede demissão, por que não respeitar aqueles os quais pode-se perceber nitidamente que, estando errados ou não, apenas estipulam regras que visam elevar a sua vida espiritual? No entanto, se optar por uma associação ministerial mais aberta e modernizada, também não pode ser censurado por isso; porém, certifique-se de que a liberdade por eles pregada esteja verdadeiramente fundamentada na Bíblia Sagrada (1ª Jo 4:1; Mt 7:15,16). Para concluir, lembre-se sempre de uma coisa: Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2:11), mas isso não significa que Ele não queira que elas mudem (Rm 12:1,2).



[1]Dogma: Ponto ou princípio de fé definido por uma Igreja. Conjunto das doutrinas fundamentais do cristianismo. Cada um dos pontos fundamentais de qualquer crença religiosa. Fundamento ou pontos capitais de qualquer sistema ou doutrina. Proposição apresentada como incontestável e indiscutível.
[2]Filosofia: Estudo geral sobre a natureza de todas as coisas e suas relações entre si; os valores, o sentido, os fatos e princípios gerais da existência, bem como a conduta e destino do homem. Sabedoria humana em contraste com o conhecimento revelado por Deus (Cl 2:8). Filósofo era uma pessoa que procurava compreender e explicar o sentido da experiência humana (At 17:18).
[3]Sutileza: Astúcia. Esperteza; habilidade em enganar.
[4]Rudimento: Fundamento; princípio.
[5]Leia Mosaica: Lei de Moisés: A Lei de Deus entregue por Moisés ao povo de Israel.
[6]Sensualidade: Lascívia (Conduta vergonhosa, como imoralidade sexual, libertinagem, luxúria). Atos modos ou gestos que despertam em outras pessoas desejos relacionados à pratica sexual. Estímulo ao apetite carnal.
[7]Constituição: Lei fundamental que regula a organização política de uma nação soberana; carta constitucional. Ordenação, estatuto, regra.
[8]Pudor: Sentimento de pejo ou vergonha, produzido por atos ou coisas que firam a decência, a honestidade ou a modéstia. Vergonha. Pundonor, recato, seriedade.
[9]Frisado: Trançado.
[10]Ortodoxo: Quem age conforme a uma doutrina definida; quem é rígido em suas convicções.
[11]Secular: Pertencente ou relativo a século. Que se observa ou se faz de século a século. Em sentido religioso, se refere àquilo que não é espiritual ou às pessoas mais ligadas às coisas relacionadas ao mundo do que as espirituais.
[12]Disciplina: Pessoa que segue os ensinamentos de um mestre. No Novo Testamento se refere tanto aos Apóstolos (Mt 10:1) como aos cristãos em geral (At 6:1). Em linguagem ministerial, é o período em que uma pessoa, após cometer um grave pecado, fica na igreja afastada de qualquer tipo de cargo, geralmente sem o direito de participar da Ceia e sem poder ministrar a Palavra ou participar de grupos de louvor; é o popular “ficar de banco”; seu tempo de pena varia de acordo com a determinação do corpo administrativo de cada denominação ou congregação local; normalmente se aplica a membros batizados nas águas.
[13]Fornicação: Relação sexual ilícita (At 15:29).