quarta-feira, 18 de julho de 2018

A Beleza e a Glória do Culto Levítico


Esboço Resumido - Escola Bíblica Dominical (Lições Bíblicas - Adultos - CPAD)

Lição 2 - A BELEZA E A GLÓRIA DO CULTO LEVÍTICO

A liturgia de culto levítica é uma
verdadeira lição de reverência na
adoração. Cada detalhe e cada gesto
nos ensinam o quanto devemos nos
colocar em nosso devido lugar como
meros seres frágeis totalmente
dependentes diante de um Deus que
é único e soberano.
Texto Áureo
Levítico 9:23 - “Então, entraram Moisés e Arão na tenda da congregação; depois, saíram e abençoaram o povo; e a glória do Senhor apareceu a todo o povo.”

Verdade Prática
O verdadeiro culto divino não se impõe pelo ritualismo nem por sua pompa, mas pelo quebrantamento de coração e pela integridade de espírito. A glória de Deus não pode faltar.

Leitura Bíblica em Classe
Levítico 9:15-24 - “Depois, fez chegar a oferta do povo, e tomou o bode da expiação[1] do pecado, que era pelo povo, e o degolou, e o preparou por expiação do pecado, como o primeiro. 16Fez também chegar o holocausto e o preparou segundo o rito. 17E fez chegar a oferta de manjares, e a sua mão encheu dela, e a queimou sobre o altar, além do holocausto da manhã. 18Depois, degolou o boi e o carneiro em sacrifício pacífico, que era pelo povo; e os filhos de Arão entregaram-lhe o sangue, que espargiu sobre o altar, em redor, 19como também a gordura do boi e do carneiro, e a cauda, e o que cobre a fressura, e os rins, e o redenho do fígado. 20E puseram a gordura sobre o peito, e ele queimou a gordura sobre o altar; 21mas o peito e a espádua[2] direita Arão moveu por oferta de movimento perante o Senhor, como Moisés tinha ordenado. 22Depois, Arão levantou as mãos ao povo e o abençoou; e desceu, havendo feito a expiação do pecado, e o holocausto, e a oferta pacífica. 23Então, entraram Moisés e Arão na tenda da congregação; depois, saíram e abençoaram o povo; e a glória do Senhor apareceu a todo o povo. 24Porque o fogo saiu de diante do Senhor e consumiu o holocausto e a gordura sobre o altar; o que vendo todo o povo, jubilou e caiu sobre as suas faces.”

Comentário
    Em que consistia o culto levítico? Como sabemos, ele era repleto de rituais, mas é importante ressaltar que não se tratava apenas de formalidades inseridas para enfeitar os eventos durante suas reuniões, mas cada ato e cada item nele envolvido tinha um significado especial.
    Quando se trata de cultuar, é necessário ter duas questões em mente: cuidado com o ritualismo excessivo e cuidado com a informalidade irreverente; formalidade é a palavra-chave quando se fala de adorar. No capítulo 9 de Levítico aprendemos que para se achegar a Deus é preciso oferecer algo; qualquer entrega tem que ser de acordo com as regras estabelecidas; o que entregamos tem que ter qualidade; o culto é algo é algo em conjunto e não individual; nada do que se oferece deve ser incompleto; não podemos negar aos nossos irmãos o que é direito deles; a função da liderança é abençoar o povo; a presença de Deus precisa ser notória no ambiente de culto; todo trabalho realmente dedicado ao Senhor precisa ter resposta dEle.

    A definição básica do culto levítico é o amor, por meio dele o que se oferecia ao Senhor era voluntário e exclusivo à Ele. Tais características resultavam em reverência, ou seja, um grande respeito àquEle a quem o culto era oferecido. Os sacerdotes e os demais levitas nada faziam por obrigação, mas com coração aberto, sentindo-se privilegiados e não forçados a isso.
    Na Igreja atual, antes de entrar em um templo e oferecer qualquer coisa ao Senhor é preciso olharmos para dentro de nós mesmos e nos questionarmos sobre o que realmente estamos fazendo ali. Necessário também é sabermos que nossa adoração é constante, pois entrar em um templo nada mais é do que se reunir demonstrando comunhão com os demais irmãos enquanto se faz uso de todos os elementos requeridos em um culto. Cultuar é uma ordem que abrange a todos e não a uma específica classe de crente de acordo com sua condição espiritual ou posição ministerial (Sl 100:1).

    Os grandes patriarcas mencionados na Bíblia cultuaram a Deus e ensinaram suas famílias a fazerem o mesmo. Eles construíam altares e exerciam a função de sacerdotes em suas casas. Adorar era uma necessidade e não uma questão de status; pois fazia parte de sua identidade como servos do Senhor, detalhe esse que os diferenciava dos demais povos.
    O que nos move a adorar - ou dizer que estamos adorando - é uma pergunta que deve incomodar constantemente nossa mente para que não venhamos a fazer nada apenas por cumprimento de uma religiosidade, mas verdadeiramente alegria proveniente de dentro do coração (Sl 100:2).

    Na era de Moisés, por meio dos mandamentos e demais preceitos, Deus não criou, Ele simplesmente oficializou os atos de adoração que já eram feitos, mostrando claramente o que e como Ele queria que fosse feito. Assim surgiu formalmente a liturgia e a teologia. Dessa forma foram também estabelecidas reuniões sagradas como, por exemplo, a Páscoa e o Dia da Expiação. Dessa forma, o ato de cultuar deixou de ser algo restrito à algumas pessoas em seus lares e passou a ser praticado por todo o povo.
    Cultuar é reconhecer a soberania do Senhor, se prostrar diante dEle e declarar nossa total dependência e nossa fragilidade diante de um Ser incomparavelmente superior. É um ato de agradecimento por parte de alguém totalmente desprovido de condições tentando agradar o seu Sustentador (Sl 100:3).

    Até o início do reinado de Davi, os cânticos ainda não faziam oficialmente parte do culto; manifestações musicais anteriores como os cânticos de Miriã e de Débora foram atos espontâneos e isolados que tiveram significado particular. Com Davi, o louvor por meio de cântico foi oficializado e organizado com coros e instrumentos musicais. Posteriormente, Salomão aprimorou a prática da musicalidade levando a mostrar ao mundo a capacidade do povo de Deus, tanto espiritual quanto culturalmente.
    A aplicação dos cânticos nos cultos na igreja se faz útil e extremamente necessária, porque a prática da música vai além do louvor a Deus; ela tanto ajuda a preparar o coração do ouvinte, tornando-o mais receptivo à pregação da Palavra, quanto também é usada pelo Espírito Santo para falar ao coração de alguém de modo particular e ainda - quando sua letra é realmente bibliocêntrica - serve de auxílio no ensino das Escrituras Sagradas. Considerando-se que a verdadeira função de um levita girava em torno dos trabalhos prestados no ambiente de culto e não em torno da música, não há uma razão lógica para se considerar os músicos atuais como levitas, pois mais justo seria aplicar esse termo, ainda que simbolicamente, aos diáconos. O louvor por meio de canções vai além de um ato de prazer, é um verdadeiro gesto de adoração (Sl 100:4).

    No período do cativeiro babilônico, os que haviam sido escravizados ficaram setenta anos impedidos de cultuar verdadeiramente. O Salmo 137 relata bem a agonia de quem se vê impedido de adorar ao Senhor: eles choravam lembrando de sua pátria, e penduraram suas harpas não querendo tocar e nem cantar, porque aqueles que os aprisionaram lhe pediam para ouvir seus cânticos não para adoração, mas sim para uma satisfação de entretenimento apenas. Somente com sua volta à Jerusalém, puderam ter novamente a sensação de exaltar livremente e com alegria o nome de Deus.
    Muitos não dão valor à liberdade de cultuar ao Senhor e somente quando se veem numa situação de cativeiro em sua vida, passam a valorizar cada oportunidade de estarem numa reunião espiritual, cantar hinos, testemunhar, orar, pregar e ouvir a Palavra juntamente com os demais irmãos. Não percamos cada momento desse tão maravilhoso privilégio que nos é dispensado gratuitamente de adorar ao Pai, exaltando sua tão grandiosa misericórdia sobre a nossa vida (Sl 100:5).

    Os sacrifícios, mais do que pedidos de perdão ou provisão, significavam gratidão. No Antigo Testamento presenciamos várias ocasiões em que o nome do Senhor foi exaltado por meio deles. Desde o início, para entrar no tabernáculo, era necessário ter algo para oferecer a Ele, representado a dependência do homem diante de sua soberania.
    Nos dias atuais o sacrifício não é de animais para nos remir de nossos pecados ou por qualquer outro motivo, pois diante de qualquer situação, o que devemos sacrificar diante dEle é um coração arrependido e pronto a nos levar a uma vida de renúncia, fazendo com que mostremos ao mundo a transformação que o Evangelho fez em nós (Rm 12:1).

    Os cânticos iam muito além da música, eles abrilhantavam o culto levando seus participantes a sentir a presença divina antes mesmo da ministração da Palavra. Muitos deles foram compostos por Davi, como também por outros autores, e estão registrados nos Salmos. A música sempre foi símbolo de alegria e pacificação da alma.
    Hoje em dia, infelizmente, não generalizando, muito do que chamam de louvor nada mais é do que barulho técnica e psicologicamente preparado para envolver o corpo e a mente das pessoas, levando-as apenas a exaltar os músicos que mais parecem estar competindo com suas belas vozes e domínio sobre os instrumentos do que realmente para elevar o clima do ambiente de maneira que todos sintam a presença do Senhor. O verdadeiro louvor precisa ser espiritual e sair de dentro do coração (Ef 5:18,19).

    Expor a Palavra de Deus durante o culto era uma necessidade, porque por meio dela é que o povo tinha condições de conhecer a vontade dEle para servir e obedecê-lo fielmente. Salomão deu um grande exemplo disso, assim como vários outros homens de Deus. Naquela época, a maioria não era alfabetizada, por essa razão a leitura era um privilégio de poucos, assim tornando a atenção à ministração algo imprescindível.
    A mesma necessidade da exposição da Palavra de Deus durante o culto é indiscutível nos dias atuais, pois mesmo tendo acesso às várias formas de literatura bíblica, nada substitui sua ministração sobre o altar. A função da pregação e do ensinamento é levar o crente ao crescimento por meio da aquisição da sabedoria, a qual se obtém através da correção mútua entre os membros do Corpo de Cristo (Cl 3:16).

    A oração era uma prática inseparável do culto. Assim como os sacrifícios, ela tinha uma função que ia além de um ato de petição ou simples formalização de pedidos de perdão, pois também servia para expressar gratidão a Ele. Também por meio dela, o sacerdote, na prática, falava com Deus e via sua resposta por meio de suas intervenções nas necessidades do povo.
    Orar é um ato fundamental para o andamento espiritual do culto e até mesmo da própria vida do crente. O nome do Senhor Jesus precisa ser primazia em nossas reuniões em ações. Orar não é apenas pedir; orar é dar a Ele graças por tudo, ou seja, admitir que Ele é o nosso sustentador (Cl 3:17).

    A Bíblia, também no Antigo Testamento, está repleta de exemplos da prática da leitura das Escrituras Sagradas. Esdras e Neemias retomaram esse costume após o cativeiro babilônico, pois assim já procediam os sacerdotes para ensinar o povo desde a implantação da Lei. Era esse também o costume dos chefes de família para ensinar seus filhos.
    Na Igreja atual, um obreiro sem um razoável conhecimento bíblico não é digno de ser chamado de obreiro. Por mais que se ore, jejue e faça o quer que seja alcançando resultados satisfatórios, se não houver domínio e aplicação fiel do conteúdo das Escrituras, seu culto não está completo e o seu próprio ministério pode estar sendo reprovado (2ª Tm 2:15).

    Conforme descrito em Números 6:22-26, a bênção completava o ato do culto. Ela confirmava a misericórdia de Jeová sobre aqueles que o obedecessem. Ela enfatizava o privilégio do povo de Israel como propriedade particular dEle, fazendo-o lembrar que o que este lhe ofereceu naquele momento de adoração, por Ele foi recebido e o que dEle foi falado na ministração, por Ele lhe seria feito.
    Da mesma sorte, a Igreja, como herdeira adotiva no plano de salvação, não deixa de ser agraciada pelas bênçãos divinas. E não poderia ser diferente em sua liturgia a existência da ministração da bênção, a qual lembra o amor divino, o sacrifício de Cristo e a ação do Espírito Santo sobre a nossa vida (2ª Co 13:13).

    Uma das finalidades do culto levítico era adorar ao único e verdadeiro Deus. Em suas reuniões era perceptível que eles tinham como prioridade demonstrar seu reconhecimento dEle como único e verdadeiro enquanto rejeitavam os falsos deuses adorados pelos povos pagãos. Cultuar era dizer “sim” a Jeová e “não” ao paganismo predominante nas nações a sua volta.
    Nosso culto precisa ser, à vista dos incrédulos, um ato de exaltação à Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, uma rejeição às práticas pecaminosas que o mundo oferece e idolatra. Nossa sujeição a Ele deve servir para mostrar aos ímpios que é do Alto que vem a nossa exaltação (1ª Pe 5:6).

    Cada detalhe no culto levítico visava expor a misericórdia divina sobre suas vidas. Tanto nas canções como na Palavra, o nome de Deus era exaltado por meio das lembranças que faziam de suas ações maravilhosas na vida dos seus antepassados. Tais testemunhos reforçavam sua fé e esperança no Criador.
    O que e com que objetivo temos oferecido em nossos cultos? Nossos louvores exaltam ao Senhor? Nossas pregações edificam o ouvinte? O que passamos aos demais em nossas diversas apresentações e discursos? Muitos, as vezes, fazem uso dos púlpitos para lamentar seus infortúnios ou exaltar sua super santidade, porém, a razão do uso do mesmo deve ser para falar das misericórdias e do poder divino, assim fazendo edificar a fé de nossos irmãos, mostrando o quanto Ele tem cuidado de nós (1ª Pe 5:7).

    Professar a fé, ou seja, afirmar e reafirmar a confiança em Deus era a marca registrada de um culto na época dos levitas. Sua liturgia era aplicada de modo a inserir e deixar gravado em cada mente a divindade, a soberania e a misericórdia divina. Não eram reuniões de petições por seus problemas cotidianos, mas sim verdadeiras ministrações de ensinamento sobre o quanto era essencial que não se esquecessem dEle tanto nos tempos bons quanto nos tempos ruins.
    Que fé professamos quando nos reunimos? Ou será que apenas nos juntamos para pedir uns aos outros que intercedam por nossa vitória nessa vida natural? Muitas coisas pertencentes apenas a esse mundo passageiro têm roubado o verdadeiro foco do culto atualmente, pois muitos ministérios se resumem apenas a organizações de campanhas, cujo ingênuo objetivo é transformar o homem em vencedor e Deus em seu servo (1ª Pe 5:8).

    A espera pelo Messias era, já naquela época, um dos objetivos de seus cultos. Eles o reverenciavam mesmo sem saber de fato quem Ele seria. Isso mostra uma característica de total espiritualidade em sua adoração, pois não exaltavam ao Senhor apenas pelo que Ele já havia feito ou estava fazendo, mas sim também pelo que Ele ainda faria, incluindo a salvação de suas almas.
    A volta de Cristo é o tema central de suas ministrações? Você tem pregado a resistência firme na fé diante das perseguições desse mundo? Por mais que saibamos que Ele concede bênçãos materiais, nosso principal conteúdo de mensagens deve visar a salvação da alma, pois tudo nesse mundo é passageiro, mas o espiritual, seja para a salvação ou para a condenação, é eterno (1ª Pe 5:9).

    Tristemente, embora eles observassem muito as exigências litúrgicas, falharam como adoradores. O próprio Senhor Jesus confirmou a profecia que dizia que aquele povo honrava a Deus com seus lábios, mas seu coração estava longe dEle. Com o tempo, o perigo maior de um culto se fez realidade entre eles: a adoração tornou-se apenas uma aparência ilusória de ações e palavras vazias; estava faltando o envolvimento do coração nos sacrifícios, no louvor e na Palavra.
    Zelar para que o culto não se transforme em gestos vazios - vazios de Deus e cheios do homem - é um dos maiores desafios para a Igreja hoje. Adorar em espírito e em verdade, ou seja, com um sentimento real proveniente do coração e com atitudes que demonstrem isso na prática, é o que o Senhor requer de nós. Quer resposta no seu altar? Sacrifique com seriedade antes (Jo 4:24).


Jonas M. Olímpio



[1]Bode de Expiação: Bode que era tocado para o deserto durante a cerimônia do Dia do Perdão. Ele era o sinal visível de que os pecados do povo tinham sido esquecidos e perdoados (Lv 16:5-28).
[2]Espádua: O ombro com a carne em volta; o quarto dianteiro (Nm 6:19).

Levítico, Adoração e Serviço ao Senhor

Esboço Resumido - Escola Bíblica Dominical (Lições Bíblicas - Adultos - CPAD)

Lição 1 - LEVÍTICO, ADORAÇÃO E SERVIÇO AO SENHOR

O fascinante e complexo livro de
Levítico, embora tenha sido elaborado
no objetivo de instruir o serviço
sacerdotal, possui um valor simbólico
e didático para a prestação de culto na
Igreja atual.
Texto Áureo
Levítico 26:11 - “E porei o meu tabernáculo no meio de vós, e a minha alma de vós não se enfadará.”

Verdade Prática
A verdadeira adoração a Deus compreende, necessariamente, o nosso serviço voluntário, santo e amoroso ao seu Reino.

Leitura Bíblica em Classe
Levítico 27:28-34 - “Todavia, nenhuma coisa consagrada que alguém consagrar ao Senhor de tudo o que tem, de homem, ou de animal, ou do campo da sua possessão, se venderá nem resgatará; toda coisa consagrada será uma coisa santíssima ao Senhor. 29Toda coisa consagrada que for consagrada do homem não será resgatada; certamente morrerá. 30Também todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores são do Senhor; santas são ao Senhor. 31Porém, se alguém das suas dízimas resgatar alguma coisa, acrescentará o seu quinto sobre ela. 32No tocante a todas as dízimas de vacas e ovelhas, de tudo o que passar debaixo da vara, o dízimo será santo ao Senhor. 33Não esquadrinhará entre o bom e o mau, nem o trocará; mas, se em alguma maneira o trocar, o tal e o trocado serão santos; não serão resgatados. 34Estes são os mandamentos que o Senhor ordenou a Moisés, para os filhos de Israel, no monte Sinai.”

Comentário
    Falar do livro de Levítico, para a Igreja atual, parece ser desnecessário e cansativo, pois aparentemente seu conteúdo se resume a preceitos exclusivos para Israel naquela época. Esse pensamento se dá devido a quase totalidade de seus textos serem explicações detalhadas sobre sacrifícios e procedimentos dos levitas, principalmente dos sacerdotes.
    Porém, ele não traz apenas regras de culto como se fosse simplesmente um manual de conduta sacerdotal. Ele possui sim uma mensagem, a qual está centralizada na santificação e serve de ensinamento para nós hoje de como termos uma verdadeira aproximação e intimidade com o Senhor por meio da adoração e prestação de serviço ao seu Reino. Em seu capítulo 27, por exemplo, nos ensina a importância da consagração a Deus de parte daquilo com o que Ele nos permite sermos abençoados em nossa vida, mostrando que o sustento material de sua Obra na terra é responsabilidade nossa; ensina que o que temos não é nosso, é dEle; fala que nossas posses também são sagradas; enfatiza a responsabilidade que temos sobre aquilo que é entregue na Casa dEle; destaca nossas obrigações como administradores; alerta sobre o perigo de profanar aquilo que é sagrado; lembra ainda da obediência que se deve aos seus mandamentos. Ainda que se trate de algo destinado à orientação de Israel naquela época, não deixa de ser um imprescindível ponto de referência para a conduta da Igreja que aguarda o Arrebatamento.

    A comprovação de que Levítico é um livro canônico é o fato de que ele foi colocado junto com os demais livros do Pentateuco na Arca da Aliança no Tabernáculo. Dessa forma, ele é também considerado como livro da Lei ou livro do Senhor.
    Os cinco primeiros livros bíblicos se completam como uma definição histórica e doutrinária que nos levam ao conhecimento sobre nossa origem e responsabilidade diante de Deus. Embora Jesus tenha resumido os mandamentos em amar a Deus e a si próprio, isso não elimina seu conteúdo original, pois quem ama não desonra a Deus, não adora falsos deuses, não debocha do santo nome dEle, reserva um tempo para Ele, honra pai e mãe, não mata, não adultera, não furta, não mente e não cobiça. Em relação ao conteúdo da Lei Mosaica, ela se dividia em cerimonial, civil e moral, as quais, respectivamente, tinham a função de organizar a adoração, as questões sociais e as regras mais básicas de convívio. Quanto à adoração, haviam razões para sacrifícios que não se aplicam à igreja atual, porque nossos “sacrifícios” hoje se resumem no que fazemos em nome dEle; em relação à civil, entendemos que cada país tem por direito definir seus padrões de justiça, então o que havia ali era a permissão divina de acordo com a necessidade dos israelitas naquele momento, assim não se tratando de uma obrigatoriedade para nós aqui hoje; no tocante às questões morais, isso sim são mandamentos válidos em qualquer época e lugar. Portanto, ter Levítico como base - e não regra - doutrinária, nada mais é que ter nossas origens como fonte de nosso aprendizado (2ª Tm 3:14).

    Seu gênero literário pode ser definido como um manual de culto para Israel no Antigo Testamento. O propósito desse livro é ensinar o povo de Deus a viver em segurança espiritual para não se desviar do santo caminho. Sua autoria é atribuída à Moisés em 1.406aC, pouco antes de sua morte. Seus personagens centrais são Moisés, Arão, Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar. Seus temas giram em torno de sacrifícios, sacerdócio, purificação e santificação. Os principais acontecimentos narrados nele são o início do ministério sacerdotal e a morte de Nadabe e Abiú que ofereceram fogo estranho perante o Senhor - provavelmente um incenso não consagrado ou algo assim -.
    Levítico é um reflexo de toda a Bíblia, inclusive do Novo Testamento, pois o que mais lemos nas Escrituras Sagradas são exortações à santificação seguido de orientações sobre a verdadeira adoração. Os princípios morais e a reverência de culto são citados em todas as passagens de diferentes formas. Por muitas vezes, nos inspiramos em Moisés e em seus demais personagens como exemplo de liderança ou de servos, seja em seus erros ou em seus acertos. Desde nosso início na caminhada na fé aprendemos a importância de cada um dos livros bíblicos e Levítico não está fora dessa lista (2ª Tm 3:15).

    A inspiração desse, como de todos os outros livros bíblicos, é divina; porém, a escrita é humana e, no caso do livro de Levítico, foi feita por Moisés. Ele, por sua vez, também escreveu os outros quatro livros do Pentateuco. Logo no início do seu primeiro capítulo podemos constatar isso: "E chamou o SENHOR a Moisés e falou com ele da tenda da congregação, dizendo: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes [...]".
    Tudo o que fazemos para a Obra de Deus não deve ser atribuído como mérito nosso, pois aquEle que nos inspira é o verdadeiro Autor das obras executadas por nossas mãos. Para ser porta-voz de Deus, tanto por palavras escritas ou faladas e também por ações, necessário lhe foi ter uma intimidade muito grande com o Senhor: lhe falava face a face, como um amigo. Como está o seu relacionamento com Deus? Ele tem te usado como instrumento em seus propósitos? Ele confia em você? O que você faz pode ser considerado como divinamente inspirado (2ª Tm 3:16)?

    Sua data, segundo a cronologia bíblica, se estabelece entre o período da saída do Egito até a morte de Moisés, de 1.445 até 1.406aC. Em meio às dificuldades do deserto foi erguido o tabernáculo e muitos milagres foram presenciados. Não há como contar a história de Israel sem se lembrar desse intervalo de tempo.
    Períodos difíceis de nossa vida são aqueles que mais contribuem para o nosso bem, pois são eles que nos exigem a “construção de um tabernáculo”, ou seja, nos aproximam mais de Deus e nos ensinam a adorá-lo verdadeiramente. Quando resistimos de pé diante das crises, nossa história fica marcada por esse capítulo, o qual nos permite estarmos sempre vivos na memória daqueles que nos tomam como exemplo de luta e perseverança. Se seus problemas não te mataram, tenha certeza de uma coisa: na escola da vida, Deus está te usando como lousa para dar as aulas do dia-a-dia aos demais alunos. Ao passo que aprendemos, ensinamos; ao passo que somos edificados, edificamos (2ª Tm 3:17).

    Em todo o Pentateuco vemos que o maior desafio de Moisés não foi tirar o povo do Egito, mas sim tirar o Egito do povo; os maiores exemplos disso são as murmurações por comida e a construção de um bezerro de ouro. Eles enfrentavam um sério problema devido ao fato de terem convivido por tanto tempo com a idolatria no Egito. Eles estavam fisicamente livres, mas permaneciam escravizados pelo pecado e necessitavam urgentemente de libertação. Por essa razão, santificação é o tema central de levítico; eles precisavam aprender a diferenciar o puro do impuro.
    Libertação não é estar dentro de uma igreja, libertação é saber que a igreja está dentro de você. Deixar ídolos pra traz, ou seja, não se prender mais às coisas do passado que te impediam o contato com Deus é a prova de que no tabernáculo que você ergueu em seu deserto realmente paira a presença do Senhor. Precisamos nos comportar como filhos, tomar nossa posição de sacerdotes, nos separar daquilo que pode nos separar de Deus e fazer jus ao valor que Ele atribui a nós imerecidamente; tudo isso para que nossos sacrifícios sejam dignos de adentrar sua glória sendo por Ele recebido (1ª Pe 2:9).

    Os israelitas peregrinaram por quarenta anos numa região desértica, e não é pelo fato de não estarem ainda na terra prometida que eles não precisavam de leis, muito pelo contrário, pois mesmo em viagem, eles necessitavam de regras que regulamentassem seu convívio social, como também sua vida espiritual. Essa foi a função do livro de levítico: mostrar que eles já eram uma nação antes mesmo de se estabelecerem fisicamente numa terra que realmente pertencesse a eles. Se não houvesse regras não haveria ordem, e sem ordem não haveria condições de convivência. Aquele era um povo duro por natureza, por isso as leis eram tão duras.
    Todos os mandamentos bíblicos, do Antigo ao novo Testamento, foram estabelecidos à altura da necessidade e da condição do homem como pecador, mostrando-lhe com clareza o que é requerido dele para ser considerado justo diante de Deus. Lembrar do Egito que saímos é um bom começo para entender o privilégio da justificação, pois agora somos parte do povo de Deus; ainda que merecêssemos a condenação, sua misericórdia nos alcançou (1ª Pe 2:10).

    O livro de Levítico mostra a função de Moisés como líder: levar pessoas pecadoras, idólatras e acomodadas a serem santas, fiéis e obreiras. Esse escrito visava então ser um material didático desse desafiador aprendizado. Neles estava contido o passo-a-passo que deveriam cumprir se quisessem tornar-se verdadeiros servos do Senhor, assim alcançando as bênçãos e não as maldições por Ele propostas.
    Santificação, fidelidade e serviço; sem essas condições não há como agradar a Deus, pois nossa caminhada espiritual consiste em separação das coisas mundanas, amor verdadeiro ao único Senhor e prazer em fazer algo em prol de seu Reino. Para entender e viver isso é preciso ter em mente que vivemos nesse mundo, mas não pertencemos a ele; os prazeres ilícitos são passageiros, mas suas consequências inimagináveis, por isso precisamos nos privar deles; o pecado sempre os usará para derrotar nossa alma (1ª Pe 2:11).

    Esse livro foi entregue nas mãos dos filhos de Levi e não nas mãos do povo. Sobre os sacerdotes estava a responsabilidade de orientar os liderados quanto à vontade divina. Porém, eles não só ensinavam, mas primeiramente serviam de exemplo observando, ou seja, praticando rigorosamente o que nele está escrito. Sua pureza moral, espiritual e até física estava exposta diante de todo o povo.
    Como líderes, sabemos que nossas atitudes falam muito mais alto do que nossas palavras, pois os liderados querem ver em nós o que cobramos deles. Da mesma forma, como cristãos comuns, todos precisam ser exemplo diante do mundo, pois não há como ganhar almas se não mostrarmos a eles que há alguma vantagem em largar os prazeres mundanos para professar uma crença espiritual. Diante do mundo devemos estar alicerçados, mostrando firmeza naquilo que por nós é construído; diante de Deus devemos estar de coração aberto, prontos à qualquer mudança para fazer algo que lhe agrade (1ª Pe 2:5).

    Levítico traz um apelo que desperta o povo à urgência de uma vida de total entrega à vontade do Senhor. Sua ênfase à santificação mostra o quanto as coisas impuras podem contaminar e matar uma alma. Ele mostra a importância e a necessidade de que do maior até o menor todos estejam prostrados diante dEle. A situação é tão séria que o sacerdote tinha que sacrificar também por ele e depois pelo povo.
    O Novo Testamento também nos atenta à essa questão, levando-nos a compreender que antes de sermos ministros devemos ser também ministrados. Nos ordena a pregar, mas nos orienta a estarmos aptos a praticar a pregação; nos alerta a termos cuidado para não morrermos enquanto estamos tentando salvar os demais (1ª Tm 4:16).

    Algo que também Levíticos ensina com grande destaque é a necessidade e o valor da intercessão. Na era da Lei, intercessão era algo bem mais complexo, pois o sacerdote fazia o papel de intermediador entre o homem e Deus; ele precisava estar sempre preparado para exercer essa delicada função.
    O sacrifício de Cristo, nosso Sumo Sacerdote, mudou essa situação, dando-nos acesso ao Espírito Santo, assim transformando nosso próprio coração num altar de sacrifício. Desse modo, podemos nós mesmos, em nome de Jesus, falar e ouvir diretamente o Pai. É necessário interceder uns pelos outros, mas um detalhe na oração é que não basta orar, é preciso estar em condições de orar (1ª Tm 2:1,8).

    Deus é santo e abençoador, e sempre requereu de seus escolhidos santificação e serviço. O povo precisava se abster daquilo que impedisse sua comunhão com ele, enquanto que os sacerdotes deveriam oferecer o máximo de si e com perfeição. Cada detalhe tinha um significado e nada podia ser ignorado tanto na adoração quanto na ação.
    O que estamos levando para o templo? O que estamos oferecendo ao Senhor? No que realmente estamos pensando no momento que dizemos que estamos adorando a Ele? O que estamos de fato querendo em tudo aquilo que fazemos em nome dEle (Lv 11:44; 1ª Pe 1:16)?

Jonas M. Olímpio

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Até que Ponto um Cristão Deve se Envolver com o Sistema Político do País?

Votar ou não votar, não é essa a
questão; afinal, votando ou não,
você tem o dever de ser um bom
cidadão e o direito de fazer valer
aquilo que é obrigação do
Estado. A questão maior que
envolve os cristãos é qual deve
ser sua postura, ou seja, o seu
grau de envolvimento com o
sistema político.
    “Sou de esquerda[1] porque o Evangelho é liberdade!”; “Sou de direita[2] porque a Bíblia é conservadora!”; “Sou governista porque a Palavra ensina que devemos respeitar as autoridades!”; “Sou oposição porque Cristo disse que esse mundo jaz no maligno!”; “Sou neutro porque sou cidadão dos céus!”. Quem nunca ouviu e também nunca repetiu alguma - ou algumas - dessas frases? O poder e a influência política estão cada vez mais presentes na vida dos cristãos, tendo chegado ao ponto de interferir diretamente na Igreja... Ou é a Igreja que está interferindo na política? Políticos nos púlpitos e pastores nos palanques; indução de líderes ministeriais em relação aos votos dos fiéis e participação aberta dos crentes na implantação de leis. No exercício do sufrágio[3], até que ponto devemos ou podemos nos envolver nas questões do Estado, considerando-se que, como cristãos, somos peregrinos[4] na terra (Sl 119:19)? Façamos então uma imparcial análise bíblica para chegarmos a uma conclusão racional - e espiritual - sobre liberdade, conservadorismo, obediência, oposição e neutralidade do cidadão evangélico em relação ao poder público considerando também que a legitimidade da organização política é reconhecida por Deus desde o início (Êx 20:1-17; Dt 16:18-20) e praticada por Jesus (Mt 22:17-21).
    Uma das maiores preocupações em relação ao cenário político é o desrespeito ou mesmo a destruição dos valores da família tradicional, em nome de uma liberdade que desvaloriza totalmente tudo aquilo o que os princípios cristãos ensinam. Dentro desse panorama, há também evangélicos que que acreditam ser radicalismo religioso se opor a isso, pois o avanço cultural e social pede mudança de postura e o cenário atual nada tem a ver com a situação dos tempos bíblicos. Em partes, é mesmo necessário que se compreenda a questão das mudanças em relação a tempos e lugares, porém, algo de maior importância a se considerar é o fato de que Deus não mudou, o que significa que, embora em situações diferentes, seus princípios não mudaram (Tg 1:16,17; Hb 13:8). O liberalismo excessivo propõe o apoio às leis que defendam atos como, por exemplo, o aborto, o “casamento” de pessoas do mesmo sexo e o feminismo. É errado isso? Se para você não houver nada demais em interromper uma vida antes mesmo dela nascer (Êx 21:22,23; Sl 139:16; 1ª Co 3:16,17), assim também como a união conjugal entre dois homens e duas mulheres (Gn 2:18-24; Lv 18:22; 20:13; Rm 1:26,27; 1ª Co 6:9-11; 1ª Tm 4:3), e ainda o domínio da mulher em questões que, por natureza, competem ao homem (Gn 2:22,23; 1ª Tm 2:11-13; 1ª Co 11:8,9; Ef 5:22-24; Cl 3:18; Tt 2:3-5; 1ª Pe 3:1-5), então não há nada de errado não; é só extremismo religioso mesmo (2ª Tm 4:3). Uma das características desse grupo é o comunismo[5]; Cristo era comunista (Lc 12:14,15)? Você já parou pra pensar no que realmente consiste a liberdade em Cristo (Rm 6:22,23)?
    Outro grupo que muito preocupa é o que defende radicalmente o conservadorismo. Estes são defensores intolerantes dos direitos tradicionais que propõem a defesa dos valores - ou do que eles consideram como valores - tradicionais a todo custo. Qual é o problema disso? Estes costumam defender medidas extremas como, por exemplo, a pena de morte, a liberação de armas de fogo para a população e o autoritarismo, isso além de não respeitarem grupos minoritários (homossexuais, presidiários, religiosos não-cristãos, estrangeiros, etc.); e pensam que Direitos Humanos é defesa de bandidos. Mas isso é problema? A Quem pertence o direito à vida (Gn 2:7; Ec 12:7)? E o que a Bíblia quer dizer quando fala sobre perdoar os inimigos e a acepção de pessoas (Mt 5:43-47; Tg 2:8,9[6])? Sim! A Bíblia fala mesmo sobre a espada da lei que justamente fere os que desobedecem, mas isso é uma carta branca para que julguemos e determinemos a morte de alguém (Mt 26:52; Rm 13:1-6[7]; Rm 12:18-21)? Defendem também o individualismo - o contrário do comunismo -; Cristo era individualista (Lc 9:12-17)? O extremismo na defesa de direitos individuais demonstra, na prática, ser tão perigoso quanto a criminalidade em si (Pr 28:16; Ez 22:12).
    Outro problema muito sério do cristão-cidadão em relação à política é a prática do governismo, ou seja, a defesa do governo sem considerar se ele está governando de acordo com os princípios que possam ser tolerados pelo cristianismo ou não. São pessoas do tipo: “Não critique, não reclame, não questione, não fale porque rebelião é pecado!” De fato, as Sagradas Escrituras nos ensinam que devemos ser obedientes às autoridades (1ª Pe 2:13); porém, nos alertam também que não podemos compactuar com aquilo que venha a ferir os princípios sagrados determinados por Deus (Tg 1:27), dentre os quais está incluída a luta contra a corrupção, o que envolve a defesa da prática da honestidade (2ª Co 8:21; Fp 4:8; 1ª Pe 2:11,12), do combate à pobreza (At 6:1-3; 1ª Tm 6:17-19), da luta pela decência moral (Tt 2:7,8), da acessibilidade à educação (Pr 1:2-6), enfim, do exercício dos direitos iguais (Ec 5:9-11). Obedecer ao homem é necessário, desde que suas leis não desrespeitem às leis divinas (At 5:28,29).
    Outro perigo é o oposicionismo. Defender as leis divinas não significa tentar se isolar como se não vivêssemos nesse mundo (Jo 17:15,16); afinal, nossa “cidadania cristã” (Fp 3:20) não nos torna seres sobrenaturais, mas apenas pessoas comuns que creem e vivem o sobrenatural (Fp 3:21; Lc 10:17-20). O pensamento oposicionista tende a tornar o cristão uma pessoa insociável[8] que vê o pecado - ou o Diabo - em tudo e não consegue diferenciar entre o certo e o errado sem generalizar cada situação. É daí que nascem várias teorias conspiratórias[9], as quais, quase que generalizadamente, se resumem em pregar a existência do paganismo[10] em todas as ações dos governos ou pessoas e empresas ligadas à ele. Mas, qual é o problema nisso? O grande problema nisso é que em vez de simplesmente ajudar a alertar a população contra a corrupção governamental, acaba é incitando o povo contra as autoridades por meio da criação de revolta e pânico, podendo gerar protestos que por muitas vezes terminam em atos violentos: verdadeiros atos de rebelião. Assim sendo, devemos então concordar com o “domínio maligno do poder”? Obviamente que não! Porém, essa é uma luta que começa no campo espiritual (Ef 6:11,12) e é travada a nível individual (Ef 6:13), pois se o mundo jaz no maligno (1ª Jo 5:19), o que podemos fazer é viver cada um com sua fé buscando para si próprio uma vida tranquila em meio à tanta turbulência (1ª Jo 5:8,9); é claro que temos que pregar a paz, mas fazemos isso tendo consciência de que nem todos darão ouvidos à voz de Deus (2ª Tm 3:1-5).
    É também comum nos depararmos com o grupo “Tanto fez, tanto faz! Minha participação não vai mudar nada mesmo!”. O neutralismo demonstra, na prática, um conformismo com tudo, o qual faz a pessoa achar que não pode ou não deve interferir em nada porque essa é a vontade de Deus; mas a Bíblia ensina o contrário, né? Pois, mesmo não aprovando, Ele permite que o homem faça escolhas (1º Sm 8:4-10,17-20). Não há, logicamente, a necessidade de nos engajarmos em causas políticas e fazer disso a nossa razão de viver, mas isso também não significa que devamos cruzar os braços e fingir que não estamos vendo nada. As Escrituras são claras ao afirmar que a omissão é um pecado (Tg 4:17). Isso significa que enquanto vivemos aqui somos parte desse mundo e devemos sim de alguma maneira tentar torna-lo um lugar melhor para se viver. Afinal, quem é capaz de ficar num ambiente sujo sem pelo menos pegar uma flanela e tirar nem que seja o pozinho do lugar aonde está sentado? O envolvimento possui vários níveis ou dimensões, mas é impossível a um ser humano em seu perfeito juízo não se envolver socialmente, mesmo que seja contribuindo simplesmente com suas opiniões, fazendo críticas ou comentários que, ao ser ver, sejam construtivas para a melhoria do ambiente em que vive. Se envolver socialmente é também uma forma de amar ao próximo (Lv 23:22). Certamente que confiar no homem não é tarefa fácil, mas precisamos avaliar, discernir e julgar (1ª Ts 5:21; Mt 7:16,17).
    Socialmente falando, o cristão possui uma missão a cumprir, a qual não o permite excluir-se politicamente. O que se deve é ter um grande cuidado para não tornar-se adepto ao partidarismo[11], pois nosso compromisso não é com partido e nem com seus representantes, mas com a verdade. Quando votamos ou nos candidatamos, assumimos compromisso com toda a sociedade, mediante à prática dos valores ensinados pela Palavra de Deus (Mt 5:16), cuidando para que devidamente se exerça nossos direitos garantidos pelo Estado Laico[12]. Religião e política sempre caminharam lado a lado desde o princípio, pois quando o povo israelita passou a peregrinar pelo deserto, Ele estabeleceu regras de convívio social e, ao longo da história, muitas são as passagens bíblicas que mostram profetas nos palácios orientando os reis (2º Rs 3:10-12; Jr 37:3,4); o próprio Jesus expressou sua insatisfação sobre a liderança política que o perseguia (Lc 13:31,32[13] [14]). É claro que isso também tem o seu lado negativo, pois essa mistura também tem sido a razão de vários conflitos e morte, mas isso é culpa do próprio ser humano ao usar o nome de Deus em sua ganância por poder. Nesse caso há a necessidade de se usar a política para se combater os maus políticos, e isso se dá por meio da prévia análise antes de ceder seu voto ou apoio e filiação a determinado partido ou candidato. O mito de que todo político é ladrão é falso, totalmente discriminatório, pois há sim ainda pessoas bem intencionadas que não se deixaram contaminar pela podridão do sistema. De fato é sim muito difícil saber quem é quem, mas como verdadeiros crentes temos a obrigação de seguir a regra mais básica na escolha política: discernimento espiritual e racional - oração e análise bíblica dos projetos -. Outro ponto importante a se observar aí é a questão perigo da transformação de púlpitos e palanques e vice-versa, pois nessa mistura muitos se deixam enganar, e vários líderes ministeriais acabam cometendo um erro gravíssimo: a imposição do voto de cabresto[15], assim transformando os fiéis em meros objetos para a eleição de seus candidatos, classificando-os como rebeldes se assim não os obedecerem; mas a Bíblia também fala sobre esse tipo de atitude (2ª Pe 2:3). Concluindo, não importa qual seja seu nível de envolvimento político, mas faça isso com a consciência limpa estando ciente de que está fazendo - ou tentando fazer - o que é melhor para a Igreja, a sociedade, a sua família e a si próprio. Fazendo o bem ao próximo, o estamos fazendo ao próprio Deus (Mt 25:35-45). E o principal de tudo é: confiemos primeiramente em Deus e não no homem (Nm 23:19; Sl 20:7).


[1]Esquerda: Politicamente falando, esse termo foi criado durante a Revolução Francesa (1789 - 1799), referindo-se ao lado do parlamento em que os políticos se sentavam. À esquerda se sentavam aqueles que defendiam uma maior igualdade social: aqueles que representavam as classes menos favorecidas.
[2]Direita: Politicamente falando, esse termo foi criado durante a Revolução Francesa (1789 - 1799), referindo-se ao lado do parlamento em que os políticos se sentavam. À direita se sentavam aqueles que defendiam direitos mais favoráveis à elite social ou interesses individuais.
[3]Sufrágio: Processo de escolha por votação; Eleição. Voto em uma eleição.
[4]Peregrino: Aquele que peregrina. O que empreende longas viagens, ficando em vários lugares por determinado período de tempo sem poder ser considerado morador dos mesmos.
[5]Comunismo: Do latim communis (comum, universal), sua característica é uma ideologia política e socioeconômica, que visa estabelecer uma sociedade igualitária em que não haja classes sociais diferenciadas, que seja apátrida (sem nacionalidade), baseada na propriedade comum dos meios de produção.
[6]Redarguido: Repreendido, replicado, respondido.
[7]Magistrado: Autoridade pública.
[8]Insociável: O que foge ao convívio social; misantropo, solitário, retraído. De difícil convivência; intratável, incômodo, importuno.
[9]Teoria Conspiratória: Teoria da conspiração se refere à forma de se entender ou se explicar qualquer coisa, tendo como "certeza" o fato de que sua origem é secreta e parte de um plano conspiratório. Essas teorias são uma tentativa de explicar algo que não tenha explicação, ou argumentar que a explicação oficialmente declarada não condiz com a verdade.
[10]Paganismo: Conjunto dos não batizados; gentilidade, gentilismo. Religião em que se cultuam muitos deuses; etnicismo, gentilidade, gentilismo, politeísmo.
[11]Partidarismo: Fanatismo partidário; facciosismo político. Aquele que defende a bandeira de um partido ou um representante político em vez situações em particular.
[12]Laico: Secularidade; secular. Que não tem religião definida; sem religião. É um conceito que denota a ausência de envolvimento religioso em assuntos governamentais.
[13]Fariseus: Em hebraico significa “separados”. Judeus devotos ao Pentateuco. Participavam das reuniões legislativas da sinagoga. Formavam um grupo de fanáticos e hipócritas (o que não era o caso de todos, pois haviam exceções, como era o caso de Gamaliel que defendeu os apóstolos que estavam presos por pregarem a Palavra (At 5:34-38)) que se opuseram duramente contra Jesus Cristo. Segundo a história, nessa época, eles eram aproximadamente 6 mil pessoas.
[14]Herodes: Nome comum de vários reis Idumeus que governaram a Palestina de 37 a.C. até 70 dC. 1- Herodes, o Grande (37 a 4 a.C.), construiu Cesaréia, reconstruiu o Templo e mandou matar as criancinhas em Belém (Mt 2:1-18). Quando morreu, o seu reino foi dividido entre os seus três filhos: Arquelau, Antipas e Filipe. 2- Arquelau governou a Judéia, Samaria e Iduméia de 4 a.C. a 6 d.C. (Mt 2:22). 3- Herodes Antipas governou a Galiléia e a Peréia de 4 a.C. a 39 d.C. Foi ele quem mandou matar João Batista (Mt 14:1-12). Jesus o chamou de "raposa" (Lc 13:32). 4- Filipe, Tetrarca (rei que governava a quarta parte de um reino) que governou bem, de 4 aC. a 34 d.C., a região que ficava a nordeste do lago da Galiléia, isto é, Ituréia, Gaulanites, Batanéia, Traconites e Auranites (Lc 3:1). 5-Herodes Agripa I governou, de 41 a 44 d.C., toda a Palestina, como havia feito Herodes, o Grande, seu avô. Esse Agripa mandou matar Tiago (At 12:1-23). 6- Herodes Agripa II governou o mesmo território que Filipe havia governado (50-70 d.C.). Paulo compareceu perante esse Agripa (At 25:13-26:32).
[15]Voto de Cabresto: Sistema tradicional de controle de poder político através do abuso de autoridade, compra de votos ou utilização da máquina pública. Prática muito comum nos meios mais pobres. Nas igrejas, as vezes é praticado por alguns pastores que coagem seus membros a votarem em determinados candidatos, alegando que os que assim não fizerem estão em desobediência; dessa forma, chegam até mesmo a proibir que fiéis que não tenham sido escolhidos pela administração ministerial se candidatem a cargos políticos para não atrapalharem seus representantes.