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| O objetivo da parábola da viúva e o juiz iniquo não é comparar Deus a um homem pecador, mas sim nos ensinar que, por meio da persistência, demonstramos fé agradando a Ele e assim alcançando misericórdia. |
Lucas 18:1 - "E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca desfalecer,"
Sendo considerada por muitos estudiosos como uma parábola de difícil interpretação, essa história contada por Jesus tem um encaixe perfeito no cenário evangélico atual em que predomina o determinismo profético disfarçado de fé. Num tempo em que a oração como clamor tem sido substituída por expressões de autoridade que "decretam bênçãos", pregar e ensinar textos como esses tornou-se uma necessidade urgente. A perseverança em oração é o segredo de qualquer conquista ou conforto em possíveis derrotas. A oração é o veículo que nos transporta do mundo natural para o sobrenatural, levando-nos diante do trono de Deus. É por meio dela que necessidades e agradecimentos são expostos diante dEle; não que Ele precise de nossa verbalização para sabe-los, pois é onisciente, mas nós precisamos falar com Ele para senti-lo próximo a nós.
Lucas 18:2 - "dizendo: Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava homem algum."
Nos tempos de Jesus, pelo que se pode entender dos conceitos históricos, o governo romano mantinha um magistrado a seu serviço para julgar problemas sociais e outro a serviço religioso que defendia questões de interesse apenas dos judeus. No caso em questão, o juiz que tratava a causa possivelmente social dessa viúva era romano e não judeu, e por essa razão não tinha temor a Deus e nem se preocupava em garantir retamente o direito das pessoas. Isso nos mostra que corrupção entre os poderosos não é exclusividade da atualidade. Os juizes da época possuíam grande poder, o equivalente a um representante político dos dias atuais. Mas nem todos honravam o compromisso que lhes era confiado e tampouco alguma consideração por aquele povo; muitos do magistrado estavam ali apenas interessados no que ganhavam no exercício da função.
Lucas 18:3 - "Havia também naquela mesma cidade uma certa viúva e ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário."
Imagina a situação daquela viúva, sabendo que teria que enfrentar uma pessoa tão difícil de se lidar, a qual tinha o poder nas mãos para resolver o problema dela ou prejudicá-la de vez. É interessante destacar o fato de que, naquela época, quase todos os casamentos eram arranjados pelos pais quando a mulher era ainda adolescente e, devido a isso, elas se casavam muito novas com homens geralmente bem mais velhos, o que fazia com que eles morressem, deixando-as viúvas ainda muito novas. Por costume da própria cultura, poucas eram bem instruídas e aptas para serem inseridas no mercado de trabalho e, por essa razão, dependiam totalmente dos maridos; assim sendo, quando eles morriam elas dependiam dos bens que eles haviam deixado. Não havendo herança, elas se tornavam totalmente desamparadas. Como é de se imaginar, havia muita disputa em torno de algum bem deixado por homens que poderiam ter dívidas ou até mesmo outras famílias e, certamente, elas ficavam a mercê de muitas injustiças. Dessa forma, se fazia necessário, por vezes, que algumas delas procurassem seus direitos diante dos magistrados.
Lucas 18:4 - "E, por algum tempo, não quis; mas, depois, disse consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens,"
Esse "por algum tempo" aqui relatado expressa que nem tudo é para sempre. O "não quis" demonstra que não há incapacidade em Deus, mas tudo depende do seu querer. É óbvio que numa parábola nem tudo tem um significado literal, pois nesse presente caso, Jesus está usando a figura de um juiz incrédulo e corrupto para representar o próprio Deus; no entanto, seu objetivo é nos ensinar que a soberania divina está acima dos poderes humanos e dos próprios homens; pois nenhuma circunstância e nem ninguém teria influência sobre a decisão daquele juiz. Mas, nesse ponto da história, vemos ele já reconsiderando sua decisão mesmo não se vendo na obrigação de voltar atrás em seu propósito de não atende-la. Deus está acima de nossos "deuses" e de nossas vontades ou até mesmo necessidades; tudo o que alcançamos é puramente por misericórdia dEle.
Lucas 18:5 - "todavia, como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte e me importune muito."
O juiz dessa parábola resolveu atendê-la, não porque considerou que ela merecesse ou tampouco porque ele próprio tinha a vontade de satisfazê-la, mas sim porque sua insistência em bater à sua porta o incomodava. Quem sabe, estaria ele resistindo a esse pedido para ver se realmente essa causa era tão importante para ela; pois muitos são os que colocam ações de questões não prioritárias diante do poder público, mas desistem devido a demora, dando assim a entender que as mesmas não eram de suma importância. O molestamento por parte dessa mulher representa nossa persistência em pedir ao Senhor por algo sem desistir, mesmo diante da demora em sermos atendidos. Persistência é sinônimo de fé, e sem fé é impossível agradar a Deus. A Bíblia nos ensina a bater até que a porta se abra; a pedir até que nos seja dado.
Lucas 18:6 - "E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz."
Aqui o Senhor manda que prestemos atenção ao que um juiz desonesto disse, e suas palavras foram: "como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte e me importune muito"; ou seja, ela foi atendida porque o incomodou, ela não aceitou um "não" como resposta, e para não ter que suportá-la mais com aquela petição, ele a atendeu. Essa ilustração feita pelo próprio Senhor Jesus parece nos induzir à uma espécie de atrevimento em nosso clamor diante do verdadeiro Juiz, afirmação essa que daria uma certa base para a aplicação da Teoria da Prosperidade, porém aqui não se trata de colocar Deus numa situação em que Ele se sinta obrigado a nos atender, mas sim de mostrarmos o quanto confiamos nEle e acreditamos no seu poder para nos socorrer, a ponto de persistirmos até Ele nos atender. A razão disso foi mostrar que se mesmo um homem corrupto se sensibilizou com a mulher devido a sua insistência, quanto mais Deus vendo nossas necessidades.
Lucas 18:7 - "E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?"
O que vemos aqui não é simplesmente um homem ímpio que resolveu ajudar uma pobre mulher somente pelo fato de estar incomodado com a presença dela em seu recinto; mais do que o incômodo, o que o fez mudar de postura foi se sensibilizar diante do sofrimento de uma pessoa que não desistiu mesmo após várias negativas ou mesmo o silêncio dele. Se um pecador pode se comover diante de alguém que clama, quanto mais Deus que é, além de justo, cheio de misericórdia. Seu amor é incompreensível e incomparável para conosco, e seus ouvidos se inclinam para ouvir aqueles que o servem e, a todo momento, o buscam de várias formas crendo que ouvirão sua voz e verão suas mãos estendidas, tanto para abençoá-los quanto para abraçá-los em momentos de necessidade de um consolo em seu coração. A expressão "tardio para com eles" não significa que Ele demora, mas que, ao nosso ver mediante o sofrimento, sua resposta deveria ser mais rápida.
Lucas 18:8 - "Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Quando, porém, vier o Filho do Homem, porventura, achará fé na terra?"
Observe que depois de dizer "ainda que tardio para com eles", Ele usa o termo "depressa, lhes fará justiça", essa é a comprovação de que o tempo que parece demorado para o homem é rápido para Deus; resumindo, o tempo dEle não é o nosso, pois Ele sabe qual é momento certo para tudo, nós é que não sabemos esperar. Mas a grande pergunta desse texto é: "Quando, porém, vier o Filho do Homem, porventura, achará fé na terra?". Essa pergunta tem sentido tanto escatológico e coletivo quanto atual e pessoal, pois mexe com nosso estado espiritual, do qual depende nossa vida cotidiana e também futura. Quando clamamos por justiça olhando para Ele como o grande Juiz, o que Ele vê em nós? Importunadores que apenas serão ouvidos pela sua misericórdia ou seguidores dignos que, mesmo cheios de falhas, procuram viver retamente sendo justos cidadãos nessa "cidade"?





