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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Como Jesus Venceu a Tentação?

Resumo baseado na revista Lições Bíblicas Adultos da CPAD - 2º Trimestre de 2015 (Jesus, o Homem Perfeito - O Evangelho de Lucas, o médico amado) | Lição 4 | AD Belém - Congr. Elias Fausto/SP - Jonas M. Olímpio

A vitória de Cristo sobre as
tentações de Satanás não começou
quando Ele disse "não" às suas
propostas, mas sim quando Ele
se entregou em comunhão a Deus
com sua vida de total obediência
complementada por jejum e
oração.
Lucas 4:1-13; Hebreus 4:15
Lucas 4:1-13 - E Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto; 2E quarenta dias foi tentado pelo diabo, e naqueles dias não comeu coisa alguma; e, terminados eles, teve fome. 3E disse-lhe o diabo: Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão. 4E Jesus lhe respondeu, dizendo: Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus. 5E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. 6E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. 7Portanto, se tu me adorares, tudo será teu. 8E Jesus, respondendo, disse-lhe: Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás. 9Levou-o também a Jerusalém, e pô-lo sobre o pináculo[1] do templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; 10Porque está escrito: Mandará aos seus anjos, acerca de ti, que te guardem, 11E que te sustenham nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra. 12E Jesus, respondendo, disse-lhe: Dito está: Não tentarás ao Senhor teu Deus. 13E, acabando o diabo toda a tentação, ausentou-se dele por algum tempo.
Hebreus 4:15 - Porque não temos um sumo sacerdote[2] que não possa compadecer-se[3] das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado.

    Sendo uma das mais belas, misteriosas e fascinantes passagens sobre Jesus, a tentação no deserto é registrada não só por Lucas, como também por Marcos (Mc 1:12,13) e Mateus (Mt 4:1-11). Em Marcos a narração é mais breve, totalmente resumida, e dá a entender que Ele foi tentado durante todo, ou a maior parte, dos quarenta dias do seu jejum; em Mateus são citadas as três tentações começando pelo desafio de transformar pedras em pães, seguido pela provocação a pular do alto do templo, terminando com a proposta de ganhar os reinos da terra em troca de adoração; já em Lucas, além de uma riqueza maior de detalhes, existe também uma ordem diferente dos fatos em relação a Mateus no que se refere às duas últimas ocorrências. A aparente contradição entre eles pode ser explicada por suas diferentes formas de escrita, pois nenhuma informação realmente contradiz a outra, muito pelo contrário: eles narram a mesma história apenas expondo diferentes detalhes. A grande verdade é que os três Evangelhos juntos se completam nos dando valiosíssimas informações para que entendamos como Jesus venceu o inimigo em condições extremas de tentação. O mais importante é compreendermos que, estando em condição humana, Jesus nos deu verdadeiras lições práticas de como vencer as tentações não cedendo ao pecado (Lc 4:1-13; Hb 4:15).
    O grande erro de alguns cristãos está em afirmar que Jesus somente venceu porque Ele é Deus. Pois não se pode ignorar o fato de que aqui na terra Ele estava em um corpo humano e, portanto, sujeito a todas as limitações humanas. Devido à sua divindade, é óbvio, Ele possuía a consciência de que estava numa missão na qual teria que passar por isso, e sabia que vencendo essas coisas entre outras mais, seria gloriosamente vitorioso no final. Assim sendo, se Ele escolheu vir à terra sabendo que passaria por tentações e que, no final, teria que enfrentar a cruz, logicamente estava preparado para isso. No entanto, sua missão, figuradamente, também aponta para a nossa missão pessoal no Evangelho; aquilo que conhecemos como “chamado”, inclui não só realizar o serviço cristão por meio dos dons, como também - e principalmente - amar, obedecer e adorar a Deus. E, embora sejamos nós meros humanos fracos e falhos, também sabemos, assim como Cristo, que se não cedermos seremos gloriosamente vitoriosos no final. Então devemos sim encarar as vitórias de Jesus sobre tudo o que Ele enfrentou aqui na terra como verdadeiras aulas práticas de que a condição humana não é desculpa para a sujeição voluntária ao pecado. Isso tanto é verdade que os pecadores não serão salvos a menos que se arrependam e abandonem o pecado (Lc 1:76,77; 5:30-32; 15:7).
    A ida de Jesus ao deserto tinha um objetivo que ia além de seu desejo de passar um período de intimidade com Deus: Ele foi para ser tentado pelo Diabo, e quem o levou foi o próprio Espírito Santo, o qual acabara de descer sobre Ele em seu batismo nas águas, enchendo-o (Lc 4:1); esse fato marcou o início do seu ministério terreno. A grande razão para essa batalha era tirar da “terrível serpente” o sabor de vitória que ela usufruía até ali por ter seduzido o primeiro homem, Adão, ao pecado obtendo vitória sobre ele (Gn 3:6,14,15); Deus poderia ter destruído o inimigo, mas, para aumentar sua humilhação, o venceu como homem, na pessoa do seu Filho Jesus, provando-lhe que a sua criação é vitoriosa perante as forças das trevas. Com isso aprendemos que antes de qualquer coisa precisamos estar cheios da unção divina para estarmos preparados para as tentações do inimigo que tentará nos parar logo no começo, e devemos ter a consciência de que isso é permitido pelo próprio Deus, pois as tentações não ocorrem apenas quando estamos em pecado, mas também servem para nos provar servindo de aprendizado para enfrentarmos o que vem a seguir. Essa é a grande razão pela qual devemos seguir os ensinamentos do Mestre e ter uma vida de constante oração (Lc 22:39,40).
    O engraçadinho se apresentou como sendo uma espécie de “gênio dos três desejos”, mas, na verdade, a realização desses desejos só iria satisfazer a ele próprio; observe bem: Na primeira tentativa, Satanás o tentou por meio de uma das mais terríveis necessidades físicas: a fome. Depois de quarenta dias sem comer absolutamente nada (Lc 4:2), o seu corpo estava debilitado necessitando de nutrientes que pudessem restabelecer suas forças. O inimigo conhece nossas dificuldades e pontos fracos, por isso sabe exatamente quando e como atacar. É interessante que o Diabo não lhe ofereceu comida, mas desafiou seu poder lembrando-lhe que Ele poderia transformar pedras em pães. A explicação mais razoável para isso é que Jesus não usava seus poderes divinos em favor de si mesmo, pois estava na terra como o homem e enfrentava a vida como tal, e Satanás sabia disso (Lc 4:33,34).
    Mais interessante ainda é que Jesus, ainda que em condição humana, mesmo sendo provocado não se deixou levar pelo orgulho - característica típica dos humanos - e mostrou ao Diabo que não precisava provar nada para ele, vencendo-o simplesmente com a citação das Escrituras (Dt 8:3). A missão real do nosso Salvador não era sua edificação ou realização pessoal, dessa forma, mesmo em grande necessidade física, nos mostrou que a prioridade de um cristão é o Reino de Deus, o qual devemos priorizar não fazendo uso do que temos - inclusive status e fama - para nossa própria satisfação ou exaltação. Jesus nos ensina também que não é preciso confrontar e nem mesmo dialogar com espíritos imundos, só temos que usar a autoridade da Palavra para vence-los (Lc 4:35,36).
    Já que não “conquistou Jesus pelo estômago”, Satanás resolveu provocar sua ambição, e ofereceu-lhe todos os reinos do mundo pedindo em troca a sua adoração. Aparentemente, uma atitude ingênua essa do “capiroto[4]”, será que ele não sabia que estava falando com o próprio criador do universo (Jo 1:1-5,9-14)? O atrevido ainda teve a ousadia de querer ser adorado por Ele; aliás, foi por essa sede de exaltação que Jeová o expulsou do céu (Is 14:12-15). Na verdade, ele não deixava de ter razão quanto à sua autoridade sobre o mundo (Jo 16:11; Ef 2:2; 1ª Jo 5:19), mas, ingenuidade mesmo foi achar que convenceria Jesus a adorá-lo e, ainda por cima, por mera cobiça material. A resposta não poderia ser outra além de um pequeno lembrete do que dizem as Escrituras sobre adoração (Dt 6:13; 10:20). E, no que se refere à adoração às coisas desse mundo, Jesus apenas diz que o nosso Pai está cuidando de nós, tenhamos, portanto, cuidado com a cobiça (Lc 16:13[5]; 12:30,31).
    Ao ouvir pacientemente tal proposta do Diabo sem coloca-lo pra correr de vez, Jesus estava nos ensinando a reagir com sabedoria diante das inúmeras ofertas malignas que são colocadas diante de nós ao longo da nossa vida. As riquezas e o status em si não são pecado, mas o apego a eles nos afastam de Deus. Muitas pessoas comuns, diante de tudo que foi oferecido à Jesus, não pensaria duas vezes antes de aceita-la e ainda diria que isso é bênção de Deus. Tal falta de discernimento tem feito muitos, de forma direta ou indireta, simplesmente, têm entregado sua alma à Satanás, adorando-o com suas atitudes de desprezo ao verdadeiro Deus, se prostrando ao inimigo por meio da cobiça, da desonestidade, da mentira, da maldade, enfim, de todas as obras condenadas pelo nosso Santo Criador. Adorar ao Diabo não consiste necessariamente em fazer rituais macabros e se ajoelhar diante de imagens satânicas, pois o simples fato de aceitar o pecado em nome de um benefício qualquer já consiste em um ato de adoração demoníaca. Pessoas dominadas por sentimentos materialistas tendem a reprovar e escarnecer os que não se rendem a atitudes desonestas (Lc 16:14,15).
    Mostrando sua incansável persistência, Satanás se apresenta mais uma vez com sua postura desafiadora em tom de descrédito à divindade de Cristo usando a expressão “se tu és”, e agora resolve tentar derruba-lo pelo ego. Quis ele agora por à prova seu poder divino, levando-o ao alto do templo para, muito provavelmente, lhe provocar a cometer um ato que, se falhasse, terminaria como um suicídio. Como anteriormente o resultado de suas investidas foi negativo, lembrando-se que foi derrotado pela Palavra, astutamente, resolveu também usar as escrituras (Sl 91:11,12). Mas, como texto fora do contexto não surte nenhum efeito - principalmente contra quem lê a Bíblia -, Jesus não fez nada mais do que lhe deixar mais um “versículo” para a sua “meditação” (Dt 6:16). Para combater os que distorcem a Bíblia em benefício próprio, não adianta discutir, é preciso usar a própria palavra de Deus porque os hereges têm o único objetivo de se autopromoverem com seus belos discursos (Lc 20:46).
    Muitos pensam que ser vitorioso é estar sempre por cima, foi baseado nesse conceito que Satanás levou Jesus à um lugar alto. Grandes altitudes nos fazem pensar que seremos vistos por todos, os quais terão que nos olhar de baixo para cima; é incontável o número cristãos que sofre da terrível doença do egocentrismo[6], sempre almejando estar no palco olhando para baixo e vendo seus opositores na plateia. Mas Jesus nunca sofreu desse mal, e quando tentado a fazer uso do seu poder como Filho de Deus para se promover diante do inimigo, simplesmente, mais uma vez o colocou em seu devido lugar, mostrando-lhe que nem Ele próprio tem o direito de tentar a Deus, ou seja: provoca-lo a lhe atender sem uma justa necessidade, pois, nessa situação, Ele é quem estaria se colocando em risco propositalmente e, numa situação dessas, Deus não teria nenhuma obrigação para com Ele. Dentro desse contexto - lembrando que quem julga é a Palavra -, como estará o coração do Criador do universo em relação àqueles que usam os dons que lhe foram concedidos - os profissionais da fé - na mera intenção de ocupar lugar de destaque entre os homens (Lc 20:47)?
    Jesus nos deu perfeitos exemplos de como vencer as tentações do inimigo que são colocadas diante de nós o tempo todo. Sua receita básica é simplesmente usar a Palavra de Deus; mas, sejamos crentes racionais e entendamos que usar a Palavra não significa citar versículos bíblicos - como fazem alguns -, como se fossem “palavras mágicas” para os demônios saírem correndo, mas sim aplicar, em situações de conflito, os princípios bíblicos ensinados nas Escrituras em vez de partir para o confronto dando a própria opinião (Ef 6:11,12). Como mostra Lucas, e também os demais evangelistas, a tentação contra Cristo não acabou aí, mas se estendeu até o momento de sua morte, pois o inimigo ainda usou seus instrumentos para tentar convencê-lo a desistir da cruz (Mt 26:31-35; 27:29, 39-44). Sua grande resistência, estando Ele num corpo humano, nos ensina que também podemos vencer (Tg 4:7). Porém, mesmo sabendo que podemos vencer, jamais podemos nos apoiar em nossa autoconfiança achando que o Diabo não vai nos tocar somente pelo fato de sermos servos de Deus; pois somos limitados e sem a misericórdia de Jesus Cristo sobre a nossa vida, nada podemos fazer (Lc 22:31-34).



[1]Pináculo: O ponto mais elevado de um edifício, de um monte etc.; torre, cúpula, coruchéu. O mais alto grau; auge, fastígio. Píncaro, cimo, cume. A parte mais elevada do templo de Jerusalém. O pináculo do templo em que Satanás desafiou Jesus a pular tinha aproximadamente 60 metros de altura (Mt 4:5-7; Lc 4:9-12).
[2]Sumo Sacerdote: Nome dado ao mais alto posto religioso do antigo povo de Israel e posteriormente a época do exílio babilônico era também a mais alta autoridade política do país. O sumo sacerdote coordenava o culto e os sacrifícios, primeiro no tabernáculo, depois no Templo de Jerusalém. De acordo com a tradição bíblica, apenas os descendentes de Arão, irmão de Moisés, poderiam ser elevados ao cargo, ainda que posteriormente esta norma foi abolida por eventos políticos. Posteriormente a época do exílio babilônico, durante o período do Império Aquemênida persa, do Egito da dinastia ptolomaica e do império selêucida, o sumo sacerdote passou a cumular funções políticas, além das religiosas, tornando-se o chefe político de Israel, submetido ao governador da Síria.
[3]Compadecer: Ter compaixão (dor causada pelo mal alheio. Dó, piedade).
[4]Capiroto: Expressão popular que significa capeta, demônio, diabo, satanás. Termo usado geralmente em tom de ironia e deboche ao maior inimigo dos seres humanos e do próprio Deus. Derivado de capirote (um tipo antigo de capuz).
[5]Mamon: É um termo derivado da Bíblia, usado para descrever riqueza material ou cobiça, na maioria das vezes. A própria palavra é uma transliteração da palavra hebraica "Mamom" (מָמוֹן), que significa literalmente "dinheiro". Mamon não era o nome de uma divindade, como muitos pensam, e sim um termo de origem hebraica que significa dinheiro, riqueza, ou bens materiais. Jesus, no Evangelho, utiliza a palavra quando afirma que não é possível servir simultaneamente a Deus e a Mamon (Lucas 16:13).
[6]Egocentrismo: Estado da pessoa especialmente interessada em si mesma e em tudo quanto lhe diga respeito. Normal nas crianças de menos de sete anos.

Resumo baseado na revista Lições Bíblicas Adultos da CPAD - 2º Trimestre de 2015 (Jesus, o Homem Perfeito - O Evangelho de Lucas, o médico amado) | Lição 4 | AD Belém - Congr. Elias Fausto/SP - Jonas M. Olímpio

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Os Fatos Mais Relevantes em Torno da Infância de Jesus

Resumo baseado na revista Lições Bíblicas Adultos da CPAD - 2º Trimestre de 2015 (Jesus, o Homem Perfeito - O Evangelho de Lucas, o médico amado) | Lição 3 | AD Belém - Congr. Elias Fausto/SP - Jonas M. Olímpio

A infância de Jesus não foi muito
fácil, pois Ele não só se dedicou
às obrigações normais de qualquer
jovem da época, o que consistia no
aprendizado secular e religioso,
mas também a ajudar seu pai
seguindo sua profissão. Conciliar
tudo isso com perfeição foi
possível pelo fato de Ele ter
sido, desde pequeno, esforçado em
manter-se também em comunhão
com Deus.
Lucas 2:46-52; 3:21,22
Lucas 2:46-52 - E aconteceu que, passados três dias, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os, e interrogando-os. 47E todos os que o ouviam admiravam a sua inteligência e respostas. 48E quando o viram, maravilharam-se, e disse-lhe sua mãe: Filho, por que fizeste assim para conosco? Eis que teu pai e eu ansiosos te procurávamos. 49E ele lhes disse: Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai? 50E eles não compreenderam as palavras que lhes dizia. 51E desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito. E sua mãe guardava no seu coração todas estas coisas. 52E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens.
Lucas 3:21,22 - E aconteceu que, como todo o povo se batizava, sendo batizado também Jesus, orando ele, o céu se abriu; 22E o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como pomba; e ouviu-se uma voz do céu, que dizia: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo.

    Assim como os demais autores dos Evangelhos, Lucas também não fornece muitos detalhes a respeito da infância de Jesus. Apesar disso, ele traz algumas informações importantes que nos ajudam a imaginar como foi sua vida após seu nascimento e antes da concretização do seu ministério terreno. Ao examinar as Escrituras podemos perceber que Jesus possui perfeitas características divinas, pois mesmo como homem manteve sua santidade claramente visível em toda sua maneira de agir. Seus pais sabiam de sua divindade (Mt 1:20,21; Lc 1:30-35), mesmo assim chegaram a se espantar com algumas de suas atitudes (Lc 2:49,50). Apesar de não ser uma criança como as outras, Ele teve uma vida comum de acordo com os padrões da época. Mesmo com suas inusitadas particularidades, Ele foi, além de uma criança exemplar, um garoto absolutamente normal (Lc 2:46-52; 3:21,22).
    Fisicamente, aqui na terra, Jesus não usufruía de privilégios divinos, ou seja: seu corpo não era sobrenatural. Embora não aja relatos de que Ele tenha sofrido algum acidente ou enfrentado qualquer doença, podemos ter a certeza de que seu corpo era exatamente como o nosso, e certamente Ele se cuidava muito bem em todos os sentidos. Em seu terceiro capítulo, Lucas relata que o menino crescia espiritual, intelectual e fisicamente. Isso prova que, ao contrário do que muitos pensam, embora que desde criança Ele tivesse consciência de sua divindade, estava vivendo num corpo tão frágil e limitado como todos nós e muitas coisas Ele aprendeu ou desenvolveu com o decorrer do tempo. Uma prova desse desenvolvimento, principalmente físico, está no fato de a palavra grega traduzida em português como estatura é “helikia”, mesma expressão usada em outros textos referindo se a altura ou tamanho de uma pessoa (Lc 19:3; Jo 9:21,23). Negar que Ele teve um corpo físico e uma infância normal consiste em heresia contrariando as próprias Escrituras Sagradas (Lc 2:40).
    Tanto Lucas quanto os demais autores dos Evangelhos constatam como Jesus tinha características físicas tão normais como de qualquer outro ser humano. Vejamos alguns exemplos: Ele sentia cansaço (Jo 4:6), fome (Mt 4:2; 21:18), sede (Jo 19:28), tristeza (Lc 19:41; 25:38; Jo 11:33-35), revolta (Jo 2:14-16[1] [2] [3]), alegria (Lc 10:21a) e dor (Mt 27:34,46[4]). Seu aspecto físico, ao contrário do que mostram as grandes produtoras de filmes supostamente cristãos, não era nada sedutor, pois, como Deus já tinha revelado ao profeta Isaías cerca de 700 anos antes do seu nascimento, nEle não havia parecer nem formosura; não havia beleza alguma para que alguém pudesse deseja-lo (Is 53:2). Portanto, não foi pela aparência que Ele conquistou multidões, mas pela graça de Deus e o Espírito Santo que estava sobre Ele; uma grande prova disso é que apesar de ser famoso por onde passava, nem todos os conheciam e, quando Judas o traiu precisou dar um sinal - um beijo - para que os soldados soubessem quem Ele era. Assim podemos perceber que em sua aparência não havia nada de espetacular, pois Ele era apenas um simples judeu de aspecto comum como qualquer outro. Assim sendo, Ele teve uma infância, uma adolescência, todo o seu período de juventude absolutamente normal, sofrendo as mesmas tentações que os demais e sempre conseguindo resistir a elas, pois nEle não havia pecado. Dessa forma, aprendemos que não precisamos ser dotados de capacidade ou aparência extraordinária para obtermos êxito em nossas ações e ao mesmo tempo agradar a Deus (1ª Jo 2:5,6).
    Como bem se sabe a respeito da história dos judeus, sempre houve entre eles um grande zelo pela família. Tal cuidado, tão bem ensinado e instituído pela Lei, era seguido à risca e devidamente fiscalizado pela sociedade e pelo responsável por cada casa; pois, além de seu valor moral, essas regras tinham o temível peso religioso. Então cuidar das viúvas, dos órfãos, proteger as mulheres e respeitar a autoridade masculina não era uma simples questão de educação, e sim uma ordem estabelecida por regras, entre as quais estavam também incluídas severas punições a quem não as obedecesse. A estrutura social hebraica estava enquadrada em bases que se classificam da seguinte forma: endógama (casamento entre parentes: descendentes da mesma tribo), patrilinear (a hierarquia de descendência é de pai para filho), patriarcal (o pai é o chefe da família), patriolocal (a mulher que se casa tem que ir para a casa do marido: ele tem toda a responsabilidade sobre ela), ampliada (os parentes fazem parte do mesmo grupo familiar) e polígena (não há controle de natalidade: as famílias são muito grandes). Sendo autênticos judeus, os familiares de Jesus não fugiam a esse contexto. Tanto que, mesmo sabendo que Ele era um ser de origem divina, não se acharam no direito de transgredir a Lei Mosaica e respeitaram todos os rituais divinos, começando por sua circuncisão[5] e a oficialização do seu nome ao oitavo dia de nascimento, incluindo o sacrifício das aves que deveria ser oferecido (Lc 2:21-24); no caso de famílias com melhores condições financeiras tinha que se oferecer, junto com uma dessas aves, um cordeiro (Lv 12:6-8[6]); então o fato de José e Maria terem oferecido apenas as duas aves derruba totalmente a teoria dos pregadores da tal “teologia da prosperidade” que diz que Jesus era de família rica. Nos dias atuais, independentemente de nossas condições financeiras, será que estamos cumprindo nossas devidas responsabilidades como pais no que se refere à educação espiritual dos nossos filhos (Lc 2:39)?
    Outra coisa que mexe com nossa imaginação, mas que também não está relatada nos Evangelhos é sobre a influência cultural de Jesus em sua infância e adolescência em relação a sociedade em que vivia. Lucas e os demais autores nos permite ter uma noção sobre isso em algumas de suas narrações sobre seu período ministerial. Por exemplo: Como um judeu comum, Ele tinha o costume de frequentar a sinagoga[7] de Nazaré[8], aonde vivia e foi criado, e se levantar para ler alguma parte das Escrituras Sagradas. Ao que parece, essa parte da liturgia se assemelha às “oportunidades para saudação” que temos hoje em nossas congregações, e ao que parece também Ele não era um pregador muito querido, pois não pregava “bênçãos” da forma como o povo gostava de ouvir (Lc 4:16-30); como qualquer homem normal, Ele também trabalhava e era conhecido como carpinteiro, a mesma profissão de José, sendo comum a tradição de os filhos seguirem o caminho dos pais em seu trabalho cotidiano (Mc 6:3); sua aparência também deixava transparecer sua origem, por isso os samaritanos não o quiseram receber com seus discípulos quando viajavam para Jerusalém (Lc 9:51-53); seu sotaque era o mesmo da população daquele lugar, pois quando Pedro o negou, foi logo reconhecido por seu modo de falar, o qual permitiu que as pessoas o identificassem como um seguidor de Jesus (Mc 14:70). Porém, apesar de sua perfeita adaptação à sociedade que fazia parte, Ele não se deixava levar por suas influências negativas (Jo 17:14-16). Embora esses exemplos que vimos tenham ocorrido em seus últimos três anos na terra, cremos que sua conduta foi a mesma durante a infância e adolescência devido a educação que recebera e o respeito que tinha por seus pais (Lc 2:41).
    A busca pelo desenvolvimento intelectual sempre fez parte da vida de Jesus, pois Ele se interessava pelo aprendizado e era um excelente ensinador. O maior exemplo disso é o fato de que Ele, com apenas doze anos de idade, nem fez questão de acompanhar seus pais na volta do templo para casa e ficou entre os doutores ouvindo seus ensinamentos, interrogando sobre seus conceitos a respeito da Lei e também dando respostas, impressionando a todos com seu incrível conhecimento das Escrituras e domínio de oratória. Certamente, o mais incrível para eles, mais do que sua pouca idade, era a sua capacidade intelectual. Podemos notar a excepcionalidade desse caso pelo fato de num lugar aonde, por tradição, predominava o respeito pela sabedoria dos anciãos, os grandes mestres terem parado para ouvir uma criança (Lc 2:41-52). A partir daí, podemos imaginar o quanto Ele deve ter impressionado seu professores e colegas ao longo da vida. Qual é a imagem que estamos passando como cristãos em lugares aonde devemos, de alguma forma, expressar conhecimento e sabedoria (1ª Co 2:15,16)?
    Como bem sabemos, Jesus teve todas as características humanas, nas quais estavam também incluídas suas reações emocionais. No entanto, Ele jamais reagiu como um homem comum e até em situações de conflito - pois Ele sempre foi muito desafiado, principalmente pelos senhores do templo - não perdia o controle sobre a situação e respondia calmamente e de acordo com a Palavra de Deus; até no próprio Diabo Ele deu um show de “Bíblia” sem precisar confrontar para vence-lo. A única vez em que Ele aparentou ter excedido em sua reação, foi nos episódios da purificação do templo (Jo 2:14-16; Mt 21:12,13; Mc 11:15-17; Lc 19:45,46), mas há uma explicação coerente para isso: em nenhum dos relatos, tanto de Lucas quanto dos demais narradores dos Evangelhos, existe a afirmação de que Ele tenha espancado os tais vendedores; Ele somente fez uso de expressões mais ásperas do que costumava usar se colocando numa postura de autoridade em ocasiões em que não adiantaria chegar cordialmente pedindo “por favor” para que parassem de comercializar num local sagrado. Além do mais, essas duas ocorrências são únicas: o desrespeito à Casa de Deus realmente o tirava do sério. Seu comportamento sempre expressou calma e autocontrole, e isso, certamente, lhe foi ensinado por seus pais, os quais eram da mesma forma, pois José demonstrou extraordinária compreensão e passividade quando um anjo lhe disse que sua noiva estava grávida de um filho que não seria dele, e Maria reagiu com obediência e tranquilidade ao saber que fora escolhida para se submeter a esse ato. Assim sendo, seu Filho foi educado num ambiente de paz e muita calma; educação essa que consistia também no incentivo na busca espiritual. É óbvio que Jesus não tinha comunhão com Deus apenas por influência de seus pais, pois Ele tinha consciência de sua natureza divina; no entanto, a educação religiosa que lhe foi dada nos serve de exemplo dos cuidados que devemos ter em ensinar nossos filhos, para que estes tenha êxito em suas atividades e longa vida na terra (Ef 6:1-4).
    Por duas vezes em seu livro, referindo-se a Jesus, Lucas usa expressão “graça” quando fala do seu crescimento. Em seu sentido original, essa palavra vem do grego charis e significa “favor”, “benevolência”; teologicamente, considera-se como um ato de bondade de Deus para com o ser humano. No contexto popular, “cair na graça” ou “ter graça” significa ter carisma para conquistar ou convencer as pessoas. Uma pessoa cheia da graça é bem vista e obtém êxito em suas ações. Espiritualmente falando, ser cheio da graça é ser portador dos requisitos bíblicos exigidos para ser considerado um verdadeiro cristão: amor, obediência, compreensão, bondade, mansidão, etc. E com Jesus não foi diferente: tanto no sentido espiritual quanto no moral, a graça estava com Ele desde criança. Mesmo sua vida não tendo sido fácil devido às condições em que vivia, não temos como imaginá-lo, mesmo em sua infância ou adolescência, murmurando ou maldizendo em qualquer situação de adversidade que enfrentasse. Ter graça não é ter tudo, mas saber viver bem com tudo o que tem. Sendo seus imitadores, será que estamos demonstrando ter a sua graça sobre a nossa vida (2ª Co 13:13)?
    Jesus, sendo Deus, tem plena capacitação espiritual; no entanto, como homem, as Escrituras revelam que seu ministério terreno cresceu gradativamente. Em Lucas 2:40,52, ao falar a respeito da graça de Deus sobre Jesus, o escritor usa a expressão “crescia”, o que significa que houve um desenvolvimento, pois, por questão de lógica, algo que cresceu passou por uma alteração de tamanho, ou seja: terminou num estado maior do que estava antes. Aí entra aquela velha questão dos cristãos fanáticos: “Mas Jesus é Deus, Ele não precisou aprender nada, pois já nasceu sabendo de tudo!”. A esses só temos que orientar que, mesmo não tendo perdido sua divindade, estando num corpo humano, Ele também tinha limitações como nós temos. Tais limitações apenas não interferiram em sua santidade, pois nEle não houve pecado (Hb 4:14,15; 1ª Pe 3:21,22; 1ª Jo 3:5), porém, sua vida espiritual dependia de perseverança na busca diária, e a maior prova disso está no fato de que Ele precisava sim orar, e orava muito (Lc 6:12; 22:39-46). Outro grande exemplo de crescimento espiritual está em seu batismo, pois foi nesse momento em que o Espírito Santo desceu sobre Ele. Pode sim esse acontecimento ter sido apenas simbólico, pois Ele não tinha pecado, mas nossos pecados estavam sobre Ele; porém, representa também o revestimento necessário para o crente fazer a sua Obra, pois, coincidência ou não, é a partir daí que seu ministério terreno começa oficialmente (Lc 3:21,22; 4:1). Isso nos ensina que precisamos saber esperar o tempo de exercer plenamente os dons que nos foram concedidos, pois experiência e maturidade se consegue com o tempo, e essas são virtudes essenciais para servirmos e adorarmos a Deus racionalmente (Rm 12:1; 1ª Co 14:40). Quando criança Jesus disse que lhe convinha tratar dos negócios de seu Pai e, de fato, por toda sua juventude cuidou em cumprir sua missão; mas, apesar disso, seu ministério começou de fato a partir de seus 30 anos de idade. Apesar de estarmos sempre envolvidos com algo na prestação de serviços ao Rei, devemos entender que nossos dons estão sempre em fase de aperfeiçoamento, por isso devemos estar sempre aptos a aprender (Ef 4:11-15; 2ª Tm 3:14-17).
    Jesus, mesmo sendo Deus, aplicou sua vida na busca do desenvolvimento de todas as formas. Historicamente, sabemos que Ele viveu sua infância numa época nada fácil em que as condições sociais eram precárias e o domínio religioso era totalmente contrário aos ensinamentos da Lei Sagrada. Alguma diferença dos dias atuais? No entanto, nada disso serviu como desculpa para que Ele se corrompesse ou desistisse de sua missão. As influências que estavam a sua volta - dinheiro fácil, garotas, diversões profanas e religiões mais agradáveis - não o conquistaram, e a incredulidade rebelde do povo com os seus inúmeros pecados não lhe fizeram dar lugar à sua ira executando condenação contra a humanidade, muito pelo contrário, fizeram aumentar seu amor por compreender que os pecadores necessitam de ajuda. A juventude atual, com poucas exceções, não tem conseguido seguir seus passos e precisa, com urgência, se lembrar que está comprometida com a “cruz” - o julgamento divino -, e que não há como escapar dela. Jesus, conforme relata o que vimos no Evangelho escrito por Lucas, foi vencedor do nascimento até a morte, provando-nos que mesmo com as limitações humanas é sim possível resistir a todas as tentações a nossa volta. Mas para alcançarmos tal objetivo precisamos obedecer a sua Palavra, a qual nos orienta a andarmos como Ele andou e isso inclui o crescimento espiritual e intelectual (2ª Pe 3:17,18).



[1]Azorrague: Açoite de várias correias trançadas, atadas a um pau, ou de uma correia só.
[2]Cordel: Corda fina; barbante, cordão, guita.
[3]Cambiador: Cambista (aquele que trabalha em câmbio, papéis de crédito e troca de moedas). Pessoas que trocavam moedas estrangeiras pelas usadas em Israel (Mt 21:12).
[4]Fel: Líquido amargo produzido pelo fígado (Sl 69:21; Mt 27:34).
[5]Circuncisão: Cerimônia religiosa em que é cortada a pele, chamada prepúcio, que cobre a ponta do órgão sexual masculino. Os meninos israelitas eram circuncidados no oitavo dia após o seu nascimento. A circuncisão era sinal da Aliança que Deus fez com o povo de Israel (Gn 17:9-14). No Novo Testamento, o termo às vezes é usado para designar os israelitas (Gl 2:8; Cl 4:11). Outras vezes significa a circuncisão espiritual, que resulta numa nova natureza, a qual é livre do poder das paixões carnais e obediente a Deus (Jr 4:4; Rm 2:29; Cl 2:11; Fp 3:3).
[6]Assaz: Bastantemente, quanto é preciso, suficientemente. Muito.
[7]Sinagoga: Casa de oração dos judeus, que começou a existir provavelmente durante o cativeiro. As sinagogas se espalharam pelo mundo bíblico. Nelas, adultos e crianças adoravam a Deus, oravam e estudavam as Escrituras (Lc 4:16-30). A doutrina cristã se espalhou entre os judeus por meio das sinagogas (At 13:13-15), cuja organização e forma de culto foram adotadas pelas igrejas cristãs.
[8]Nazaré: Cidade localizada no sul da Galiléia. Ali Jesus cresceu e ali vivia a sua família (Lc 1:26-27; 2:4,51; 4:16).

Resumo baseado na revista Lições Bíblicas Adultos da CPAD - 2º Trimestre de 2015 (Jesus, o Homem Perfeito - O Evangelho de Lucas, o médico amado) | Lição 3 | AD Belém - Congr. Elias Fausto/SP - Jonas M. Olímpio

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Os Fatos Mais Relevantes em Torno do Nascimento de Jesus

Resumo baseado na revista Lições Bíblicas Adultos da CPAD - 2º Trimestre de 2015 (Jesus, o Homem Perfeito - O Evangelho de Lucas, o médico amado) | Lição 2 | Jonas M. Olímpio

A narração do nascimento de
Jesus no Evangelho escrito por
Lucas, além de bela, é rica em
detalhes. Essa história nos ajuda
a entender com clareza as
profecias bíblicas anteriores e
posteriores à transição entre a
Lei e a Graça.
Lucas 2:1-7 - E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto[1], para que todo o mundo se alistasse 2(Este primeiro alistamento foi feito sendo Quirino presidente da Síria). 3E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. 4E subiu também José[2] da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém (porque era da casa e família de Davi), 5A fim de alistar-se com Maria[3], sua esposa, que estava grávida. 6E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. 7E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura[4], porque não havia lugar para eles na estalagem[5].
    O nascimento de Jesus[6] marca a quebra do “silêncio” de 400 anos de Deus para com Israel. Essa fase, conhecida como “período intertestamentário[7]”, vai de Malaquias[8] até João Batista[9], o último profeta da Antiga Aliança, considerando que a época da Graça foi iniciada a partir da crucificação. Conforme podemos ver nos primeiros vinte versículos do segundo capítulo do livro de Lucas, o nascimento de Jesus foi bastante conturbado: Depois de José ter recebido por meio de um anjo a notícia de que Maria estava grávida de um filho gerado pelo Espírito Santo, justamente nos últimos dias da gestação, o imperador romano César Augusto ordenou que fosse feito um censo. Para cumprir essa convocação, José pegou sua esposa e ambos saíram de Nazaré para Belém, sua cidade de origem, numa viajem de 112 quilômetros (esse foi um plano de Deus para se cumprir o que Ele já tinha falado através do profeta Miquéias: “E tu, Belém Efrata[10], posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel” (Mq 5:2a); nesse lugar tinha vivido o Rei Davi). Estando eles ali, veio o momento de Maria dar à luz; era uma noite fria de inverno em que a temperatura poderia chegar a 4 graus. Sendo a hora já avançada, não conseguindo eles lugar na estalagem, foram abrigados num estábulo e, depois de nascido, foi colocado em uma manjedoura.  Na mesma noite, pastores que cuidavam de um rebanho nas proximidades foram visitados por um anjo, o qual lhes comunicou o nascimento do Messias[11] indicando-lhes o local aonde Ele estava; e os mesmos, visitando-o, se alegraram glorificando a Deus e se encarregaram de espalhar aquela boa notícia. Um fato de extrema importância não relatado por Lucas, sendo mencionado apenas por Mateus, foi a visita dos magos[12] do oriente. No Evangelho não está relatado quem e nem quantos eram esses magos, ele apenas afirma que os mesmos tinham a intenção de adorar e presenteá-lo. Para cumprir esse objetivo, seguiram uma estrela que os guiou até Belém; ali chegando, procuraram se informar sobre o local aonde estaria o menino Jesus e, chegando isso ao conhecimento de Herodes, uma perturbação apoderou-se dele, pois, obviamente, por motivos políticos, não lhe era nada confortável saber que entre os judeus havia nascido aquEle a quem era considerado como um rei e, futuramente, poderia ser aclamado pelo povo para assumir o trono em seu lugar; astutamente, deixou que os magos prosseguissem na procura, orientando-os que quando o achassem, lhe comunicassem para também poder adorá-lo, mas na verdade pretendia mata-lo. Então partiram seguindo a mesma estrela e cumpriram sua missão. Porém, na volta, já tendo Deus os avisado em sonho sobre o perigo, voltaram ao oriente por outro caminho. Da mesma forma, um anjo avisou a José, orientando-o a fugir com sua família para o Egito, lugar em que permaneceram até a morte de Herodes por um período que os estudiosos acreditam ter sido por volta de um ano e meio. Nesse meio tempo, dezenas de meninos com idade inferior a dois anos foram mortos. O local do seu nascimento é um dos sinais de que Ele veio para salvar e reinar entre os humildes (Lc 2:7).
    Ao iniciar a leitura do livro de Lucas podemos notar seu conteúdo também poético. Em seu primeiro capítulo (46-55; 67-79), há duas poesias consideradas como cânticos: a primeira é de Maria quando foi visitar Isabel[13] em que ela expressou sua alegria por carregar em seu ventre o Salvador da humanidade. E a segunda é de Zacarias louvando a Deus por ver cumprida a promessa do nascimento de seu filho João Batista e por saber que esse seria o profeta que prepararia o caminho para o tão esperado Messias; esse fato se deu no momento em que ele recuperou sua voz, a qual tinha perdido por ter duvidado do anjo que lhe disse que ele e sua esposa teriam um filho; sua incredulidade e questionamento foram devido a sua avançada idade e a esterilidade de sua esposa. Interessante é o fato de ele ter duvidado mesmo depois de ter orado para ter um filho. Teologicamente, entre os cristãos, essas belíssimas palavras são identificadas como o Magnificat de Maria e o Benedictus de Zacarias. Ambas as descrições em forma de poesia, podendo ser conferidas tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, são de conteúdo profético (Lc 1:54,55; 68-70,76).
    Os escritos lucanos revelam o quanto ele se importava e se preocupava em dar destaque ao Espírito Santo: no Evangelho de Lucas Ele é mencionado 17 vezes, e em Atos dos Apóstolos, 54. Ambos os livros chamam muito a atenção por levarem seus leitores a conhecerem o poder de Deus concedido aos seus servos e a desejarem ser participantes de uma tão grandiosa graça. No caso do Evangelho de Lucas, em seu primeiro capítulo, Ele é citado nos episódios da visita de Maria a Isabel e do nascimento de João Batista, em que Ele enche Isabel e Zacarias em seus momentos de grande alegria; no segundo capítulo, Ele é mencionado como estando sobre Simeão cumprindo a promessa de que o mesmo não morreria antes de ver o Salvador; no terceiro capítulo, Ele tem uma participação especial no batismo de Jesus. E nos demais, sua presença é constante no ministério terreno de Cristo[14] até o seu final fazendo parte de sua promessa de revestimento de poder à sua Igreja (Lc 24:49).
    Antes do nascimento de Jesus - aproximadamente seis meses -, a história foi marcada pelo nascimento de João Batista. Seus pais foram Zacarias e Isabel; Zacarias, um sacerdote, foi sobre sua vinda por um anjo durante uma queima de incenso[15] no templo. A missão de João era totalmente diferente e mais nobre do que as dos outros profetas, pois ele estava incumbido de preparar o caminho para a chegada e a atuação do Messias. Isso consistia em pregar o Evangelho e anunciar que o tão esperado Salvador já estava por vir. Pela tradição da época, quando um rei se preparava para viajar, à sua frente ia um mensageiro anunciando a sua vinda. Como pregador, suas características eram totalmente contrárias aos pregadores convencionais, pois ele pregava com bastante autoridade e, ao mesmo tempo, vivia em condições de extrema simplicidade, mantendo também um comportamento de grande humildade em relação ao Mestre a quem ele anunciava a chegada (Lc 3:16).
    José, o esposo de Maria, também recebeu a notícia do nascimento de Jesus por meio de um anjo. Eles foram, sem dúvida nenhuma, detentores de uma grandiosíssima dádiva divina; porém, tal privilégio não os torna divinos. Principalmente no que se refere a ela, a mariolatria[16] que presenciamos nos dias atuais é biblicamente abominável diante de Deus. O fato de Jesus ter sido gerado nela pelo Espírito Santo, sendo ela ainda virgem não a torna digna de adoração. É óbvio que temos o dever de respeitá-la, afinal, ela foi escolhida para levar Jesus à humanidade por sua humildade e obediência às leis sagradas. No entanto, devemos entender que levar Jesus à humanidade é uma missão para todos nós, e isso não nos torna merecedores de adoração. Quanto à falsa teoria de sua eterna virgindade, os livros de Mateus e Marcos relatam que ela teve mais filhos; além do mais, o livro de Lucas se refere a Jesus como o primogênito e narra também uma afirmação dEle próprio, quando uma pessoa a exaltou, dizendo que mais bem-aventurados são os que ouvem e obedecem a Palavra de Deus (Lc 2:7; 11:27,28).
    O Evangelho escrito por Lucas dá um grande destaque à proximidade de Jesus com as classes socialmente menos favorecidas sempre expressando o seu grande amor por eles. Conforme já foi predito pelo profeta Isaías, o Espírito de Deus estaria sobre Ele para, entre muitas outras coisas, evangelizar os pobres (Is 61:1). Em seu ministério terreno, o nosso Senhor classificou os pobres como bem-aventurados (Lc 6:20), e ainda destacou sua maior acessibilidade à salvação (Lc 18:25). Desde sua chegada é bastante visível o privilégio que foi dado à essa classe tão desprezada pela elite da sociedade da época: seu nascimento foi dentro de uma estalagem, o que é um lugar extremamente humilde; esse acontecimento foi revelado à simples pastores no campo e não aos nobres da região; e não há nenhum relato bíblico de que Ele tenha usufruído de uma vida de luxo e conforto, muito pelo contrário, sendo um filho exemplar, aprendeu a profissão de seu pai e trabalhou juntamente com ele - em Marcos 6:3 Ele é chamado de “o carpinteiro” - e, usando uma linguagem figurada, Ele mostrou que sua prioridade era ministerial e não satisfação pessoal (Lc 9:58).
    A realeza de Jesus é inquestionável, e a mesma é repetidamente relatada no livro de Lucas. Conforme mostra a genealogia, Ele é descendente de Davi (Lc 3:23-38). E, em cumprimento à profecia registrada em Miquéias 5:2, Ele nasceu na cidade de Davi (Lc 2:11). Sua identidade real é confirmada nos escritos de Lucas e dos autores dos outros três Evangelhos, e isso ocorre não somente em relação ao seu nascimento, mas ao longo de sua vida; podemos constatar isso em algumas passagens como por exemplo, aquele célebre momento em que Ele entrou em Jerusalém montado num jumentinho e o povo o exaltou como rei (Lc 19:38). É importante lembrar também que seu divino título real lhe custou falsas acusações e também sua prisão, humilhação e morte na cruz (Lc 23:2,3,37,38); porém, tudo isso já fazia parte do seu plano para a nossa salvação (Lc 24:7).
    Sendo o glorioso Rei dos reis, Jesus poderia ter escolhido a realeza dos grandes reinos da terra para recebe-lo e fazer parte da sua vida e do seu ministério terreno. Ele poderia, dessa maneira, ter subido aos grandes palcos da época e ser aplaudido pelos nobres usufruindo uma vida de luxo e conforto; mas, Ele escolheu a cruz. E, para chegar até ela, a melhor forma seria contrariar a elite dominante da sociedade caminhando junto a pessoas simples e humildes que não tinham nada a oferecer a não ser segui-lo e apoiá-lo em agradecimento ao que Ele fazia por elas. Uma multidão de súditos em torno de um só homem causou preocupação nos poderosos que sentiram isso como uma ameaça ao seu governo, por isso resolveram pará-lo forjando acusações para condená-lo à pena de morte. Ele sabia que isso aconteceria, e essa foi uma das razões pelas quais Ele escolheu estar ao lado dos pobres. E essa decisão já pode ser percebida desde o seu nascimento, o qual foi revelado à pessoas de grande simplicidade e humildade como Zacarias, Isabel, Simeão e Ana[17] e os pastores do campo entre outros, e os seus pais José e Maria. É importante não esquecer que tais pessoas não foram escolhidas simplesmente por serem pobres, mas por serem tementes à Lei de Deus (Lc 1:6; 2:25,26,36-38).
    Como bem sabemos, Jesus não aboliu, muito pelo contrário, Ele cumpriu a Lei. Esse é um dos princípios para entendermos que o cristianismo não é uma seita constituída por pessoas que abandonaram o judaísmo, e sim uma reforma que surgiu com o objetivo de quebrar o antigo conceito da salvação pelo ritualismo, tornando uma fé superficial em uma fé prática dando ao homem acesso direto a Deus por meio do Espírito Santo. A Graça não excluiu o dever de cultuar, mas transformou o culto num sacrifício pessoal em que a transformação na vida está acima de qualquer sacrifício ritualístico. Isso não anula as obrigações morais e espirituais já instituídas nos Mandamentos e em toda a Lei. Desde o seu nascimento até a sua morte, Jesus sempre deixou claro que seu objetivo era - e é - apenas “humanizar” as regras colocando o amor como o centro de tudo (Lc 10:27,28).
    O nascimento de Jesus é um grande marco na história de toda a humanidade. O doutor Lucas deu a Ele seu merecido destaque, certamente, por saber das grandes lições de humildade e amor contidas nesse maravilhoso evento, e também por seu inestimável valor histórico. Esse grandioso fato revela o cumprimento de muitas profecias dos antigos profetas e marca o início de uma nova era trazendo também mensagens proféticas que se cumpririam desde sua crucificação até o tempo dos apóstolos, estendendo-se ainda aos dias atuais, e isso inclui tanto a promessa da descida do Espírito Santo quanto as suas previsões escatológicas, e se completará com sua vinda levando seus servos fiéis à morada celestial. E, por falar no nascimento de Cristo, Ele já nasceu no seu coração (Lc 2:29,30)?


[1]César Augusto: Fundador do Império Romano, sendo seu primeiro imperador (de 27aC. até sua morte em 14 dC.). Seu nome completo era Caio Júlio César Otaviano Augusto. Nasceu no dia 23 de setembro do ano 63aC., em Roma; e morreu, provavelmente por causas naturais, no dia 19 de agosto do ano 14dC., em Nuvlana, na Itália. Seu reinado foi considerado pacífico. Um dos marcos do seu governo foi o ordenação de um censo cujo objetivo era estabelecer taxas de impostos sobre os povos colonizados, o que incluía os judeus.
[2]José: Marido de Maria, mãe de Jesus, e descendente de Davi (Mt 1:16-2:23). Era carpinteiro (Mt 13:55). Foi um homem temente a Deus e, quando avisado por uma anjo que sua noiva teria um filho gerado pelo Espírito Santo foi obediente e a recebeu como esposa (Mt 1:18-25).
[3]Maria: Mãe de Jesus e esposa de José (Mt 1:18-25), da linhagem de Davi (Lc 1:27; Rm 1:3). Ela é "bendita entre as mulheres" (Lc 1:28,42,48). Após o anúncio do anjo (Lc 1:26-38), Maria engravidou pelo poder do Espírito Santo (Mt 1:18) e deu à luz a Jesus, em Belém (Lc 2:4-7). Ela guardou em seu coração os fatos extraordinários relacionados com o nascimento de Jesus (Lc 2:15,19,51). Ela esteve com Jesus no casamento em Caná (Jo 2:1-12). Quando Jesus foi crucificado, ela estava presente, e então ele a confiou aos cuidados de João (Jo 19:25-27). Finalmente, ela é mencionada com os primeiros cristãos (At 1:14). A Bíblia cita a existência de outras 4 mulheres com esse nome: 1) Irmã de Marta e de Lázaro, de Betânia (Lc 10:38-42; Jo cap. 11; 12:1-8). 2) Madalena, talvez a mulher mencionada em Lucas 7:37-50, (Mc 16:9; Lc 8:2), foi testemunha da morte e do sepultamento de Jesus (Mt 27:56,61) e o viu ressuscitado (Mt 28:1-9). 3) Esposa de Clopas (Jo 19:25) e mãe de Tiago e José. Ela testemunhou a crucificação e o sepultamento de Jesus (Mt 27:56,61) e o viu ressuscitado (Mt 28:1-9). 4) Mãe de João Marcos e irmã de Barnabé (Cl 4:10). Ela cedeu sua casa para as reuniões dos cristãos em Jerusalém (At 12:12).
[4]Manjedoura: Cocho. Tabuleiro em que se coloca comida aos animais na estrebaria. Pode ser feita de madeira ou de pedra.
[5]Estalagem: Albergaria, pousada. Hospedaria. Conjunto de pequenas casas.
[6]Jesus: Significa “Javé é Salvador”. É a forma grega de Josué (Mt 1:21). Cristo quer dizer Ungido; é o mesmo que o termo hebraico Messias (At 17:3). Ele é o Anjo do Senhor que aparece no Antigo Testamento (Gn 18:1-23). Esvaziou-se da sua glória e se humilhou, tomando a forma de ser humano (Fp 2:6-11). O seu ministério terreno durou mais ou menos 3 anos e meio.
[7]Intertestamentário: Intervalo de 400 anos entre o Antigo e o Novo Testamento em que Deus não falou ao povo por meio de profetas.
[8]Malaquias: Foi contemporâneo de Esdras e Neemias, no período após o exílio do povo judeu na Babilônia em que os muros de Jerusalém tinham sido já reconstruídos em 445 aC. O Livro de Malaquias é um livro profético que faz descrições que mostram a necessidade de reformas antes da vinda do Messias. Por ser um livro curto e de acordo com a catalogação, Malaquias é o último dos profetas menores, tendo sido escrito por volta do ano 430 a.C., sendo que o seu nome não é citado em mais nenhum livro da Bíblia.
[9]João Batista: O profeta que preparou a vinda de Jesus. Era filho de Zacarias e Isabel (Lc 1:5-25,57-80). Iniciou e desenvolveu o seu ministério na região do rio Jordão (Lc 3:1-3). Pregou o batismo de arrependimento (Lc 3:4-14) e a vinda do Reino dos céus (Mt 3:1-12). João batizou Jesus (Mt 3:13-17) e testemunhou a respeito dele (Jo 1:15-34). Por ordem de Herodes Antipas, foi preso e morto (Mc 6:14-29). Jesus o elogiou (Mt 11:7-14). Seu batismo continuou sendo praticado por algum tempo (At 18:25).
[10]Efrata: Significa "Terra Frutífera". É um lugar citado na Bíblia; também pode ser o nome de uma tribo. Mencionada na Bíblia como o lugar em que Raquel morreu (Gn 35:16; 48:17). É considerado como o antigo nome da cidade de Belém e também significa "Casa do Pão".
[11]Messias: Significa “Ungido”; nome dado ao Salvador, o Senhor Jesus Cristo.
[12]Mago: Sacerdote dos medos e persas. Aquele que se presume saber como desenvolver e empregar conscientemente os poderes mágicos. Feiticeiro.
[13]Isabel: Significa "Meu Deus Jurou". Descendente da linhagem de Arão. Esposa do Sacerdote Zacarias. Prima de Maria (a mãe de Jesus) e mãe do profeta João Batista (Lc 1:39-56).
[14]Cristo: Do grego "khristós", significa "Ungido". Termo que se refere a Jesus. Em hebraico tem o mesmo significado que Messias (Ungir).
[15]Incenso: Resina aromática de certas árvores que, misturada com especiarias (Êx 30:34-38), era queimada nas cerimônias de adoração a Deus (Lv 16:13), de manhã e à tarde (Êx 30:1-10). O incenso era símbolo das orações que subiam para Deus (Sl 141:2; Ap 8:3-5).
[16]Mariolatria: Ato de adoração a Maria, a mãe de Jesus. Prática que faz parte da doutrina católica. A adoração a ídolos é condenada por Deus (Êx 20:3-5).
[17]Ana: A Bíblia menciona duas mulheres com esse nome: 1) Esposa de Eucana e mãe de Samuel; ela era estéril, pediu um filho e, quando Deus concedeu, ela o entregou para servir no templo (1º Sm 1:1-2:21). 2) Uma profetisa da tribo de Aser. Viúva de 84 anos, temente a Deus, dedicada aos trabalhos do templo. Viu o pequeno menino Jesus quando este foi apresentado no templo por seus pais.

Resumo baseado na revista Lições Bíblicas Adultos da CPAD - 2º Trimestre de 2015 (Jesus, o Homem Perfeito - O Evangelho de Lucas, o médico amado) | Lição 2 | Jonas M. Olímpio