sábado, 30 de setembro de 2017

Calvinista, Eu? Quem Foi Calvino Mesmo?

Entre tantas polêmicas e
acusações - inclusive de
assassinatos -, Calvino nos
deixa uma grande lição de
que quando se luta pelo que
se crê, as raízes do seu
trabalho podem se expandir
e frutificar ao longo da
história.
    Você é calvinista ou arminiano? Essa é uma velha pergunta que muitos evangélicos não sabem responder, e certamente essa deve ser uma das razões que te levaram a ler esse texto. Para saber do que se trata, nada melhor do que ir na origem da história; então, vamos começar por Calvino, quem foi ele mesmo? João Calvino (Jehan Cauvin), tendo nascido em Noyon - na França - no dia 10 de julho de 1.509, e falecido em Genebra - na Suíça - no dia 27 de maio de maio de 1.564, foi um teólogo que professou o cristianismo, deixando sua marca por meio de sua interpretação bíblica que prega aquilo que podemos chamar de doutrina da salvação por meio da predestinação ou Graça irresistível, ou seja, é aquela linha de pensamento que diz: “uma vez salvo, sempre salvo”. De fato, como cristão, Calvino demonstrou ser zeloso por aquilo que acreditava e defendia sua fé como poucos cristãos defendem aquilo que creem; no entanto, o objetivo de nosso estudo aqui não é falar de sua vida particular, mas sim sobre suas interpretações bíblicas, e é isso que vamos enfocar.
    O calvinismo[1] em si pode ser caracterizado por cinco pontos básicos nos quais se resume sua doutrina. Trata-se da sigla TULIP, cujas iniciais, em inglês, possuem o seguinte significado: T [Total Depravity: Depravação Total]; U [Unconditional Election: Eleição Incondicional]; L [Limited Atonement: Expiação Limitada]; I [Irresistible Grace: Graça Irresistível]; P [Perseverance of the Saints: Perseverança dos Santos]. É importante ainda ressaltar que embora esses pontos se refiram aos ensinos de Calvino, esse termo não foi criado por ele, mas sim por defensores de sua ideologia que o elaboraram em resposta aos seus opositores, no ano 1.610, apresentando-o como os “cinco artigos de fé”. Abaixo veremos cada um dos pontos dessa teoria teológica, apenas mostrando algumas das referências bíblicas aplicadas por eles sem explicá-las, pois meus comentários e interpretação sobre a doutrina da salvação estão no texto “Afinal, a Salvação é Predestinada ou Conquistada?”.
Depravação Total - De acordo com o calvinismo, o ser humano é dotado de uma capacidade natural para o mal. Assim sendo, nenhuma vontade benigna existe nele por si próprio, o que significa que se Deus não impuser fé e desejo em sua mente, ele só tende ao pecado. Para argumentar que o homem sequer é capaz de desejar fazer o bem, baseiam-se em alguns textos bíblicos na intenção de:
·       Provar nossa natureza pecaminosa (Sl 51:5[2]);
·       Seguida pela tendência ao mal (Jr 13:23);
·       A inexistência de justiça e fidelidade na humanidade geral (Rm 3:10-12), assim como no homem de modo particular (Rm 7:18);
·       A incapacidade humana de compreender as coisas de Deus (1ª Co 2:14);
·       Mostrando o que consideram como soberania divina (Ef 1:3-12[3] [4] [5] [6] [7] [8] [9]);
·       E a impossibilidade do homem para arrepender-se e ser perdoado sem que seja impulsionado a isso (Cl 2:11-13[10]).

Eleição Incondicional - Segundo a interpretação calvinista, Deus não tem a obrigação de salvar ninguém, por isso elegeu apenas alguns para a salvação e rejeitou os demais, condenando-os à perdição eterna sem nenhum direito ou oportunidade para que sejam salvos. Seus argumentos bíblicos para explicar tais pensamentos são:
·       A escolha de Deus em relação à Esaú e Jacó (Ml 1:2,3[11] [12]);
·       O que Jesus disse sobre ninguém poder ir a Ele se isso não fosse concedido pelo Pai (Jo 6:65);
·       O fato de Ele ter escolhido seus discípulos (Jo 13:18; 17:9);
·       Aparentes afirmações de que os salvos já estão previamente escolhidos (At 13:48; Rm 8:28-33; Ef 1:4,5; 2ª Ts 2:13,14; 1ª Pe 2:8,9);
·       Uma tal soberania que controla a vontade do homem (Rm 9:15-23);
·       Enfatizando que o homem nada pode fazer em relação à sua própria salvação (Rm 11:5-7; Ef 2:8-10).

Expiação Limitada - Os que seguem a visão calvinista sustentam a opinião de que somente os escolhidos foram “programados” para crer e que, embora a vontade divina seja a salvação de todos e para todos foi concedida essa oportunidade, apenas os eleitos realmente crerão. Segundo essa linha de pensamento:
·       Expressões como “homens” e “mundo” possuem um sentido individual e não generalizado; assim tornando algumas pessoas especiais para Deus e outras desprezíveis, e isso não por mérito de sua obediência ou por demérito de seus pecados, mas por decisão dEle mesmo (Jo 17:6:9,10).

Graça Irresistível - Pela interpretação dos teólogos calvinistas, não há liberdade de escolha (livre arbítrio) para o homem, ou seja, se estiver predestinado à salvação não resistirá ao chamado pela força irresistível do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, se estiver predestinado à condenação não terá chance alguma de obter salvação. Suas argumentações teológicas consistem em:
·       Dizer que Deus tem seus propósitos, mas a culpa pelo pecado é do próprio homem (Jr 3:3[13]);
·       Mas a causa da salvação não é a obediência, e sim a “sorte” de ter sido escolhido (Jr 24:7; Ez 11:19,20; 36:26,27).
·       Basear-se na dependência do ser humano em relação a Deus, para dizer que ele nada faz fora da vontade do Todo-Poderoso (1ª Co 4:7; Ef 1:19; Cl 2:13);

Perseverança dos Santos - Dentro da linha de pensamento do calvinismo, o conceito que podemos ter é “uma vez salvo, sempre salvo”. Por mais que peque, o eleito não errará o caminho porque o Senhor sempre terá misericórdia sobre ele, de alguma forma “dando um jeitinho” para que ele possa ser considerado santo e possa entrar no céu. Há também o argumento de que alguns, pela Graça, também recebem a fé e vivem como se fossem eleitos, mas não é essa uma fé de raiz viva que permanecerá até o fim - essa é a Graça Evanescente[14] -. Segundo eles:
·       É impossível um eleito perder a salvação (Is 54:10; Jo 6:51; Rm 5:8-10; 8:28-39; 1ª Co 5:1-5; Fp 1:6; 2ª Ts 3:3; Hb 7:25);
·       Da mesma forma que é impossível que um condenado perca a condenação (Rm 9:21,22).
·       Assim sendo tanto a salvação quanto a condenação para a glória de Deus (Rm 9:23-26).
    Como vimos, de acordo com a teologia calvinista, a salvação não é simplesmente uma oportunidade, mas uma escolha projetada e executada por Deus sem que nenhuma atitude humana possa alterá-la; dessa forma, a condenação possui o mesmo conceito, o que sob a ótica da lógica iguala a soberania divina à tirania de um rei caprichoso que exalta e mata sem razão alguma. Faz sentido alertar tanto contra as consequências do pecado e simplesmente não permitir que o pecador deixe de pecar? Faz sentido falar tanto sobre os benefícios da santidade, mas no final salvar alguém que nunca quis abandonar o pecado, somente pelo fato de ele ser um eleito? A intenção aqui nem é questionar nossos irmãos seguidores do calvinismo, mas em nossa mente essas perguntas são inevitáveis.
    De forma não generalizada, seus defensores - cuja maioria gosta de se identificar como cessacionista[15] e monergista[16] - são assíduos leitores e estudantes da Bíblia e de literaturas de autoria de mestres especializados no assunto. São pessoas que gostam de pensar e fazer pensar, demonstrando um aplausível amor pelo Todo-Poderoso e as coisas concernentes ao seu Reino. O ativismo de grande parte deles em defesa ao que creem nos inspira a dar maior valor à busca pelo conhecimento do conteúdo das Escrituras Sagradas; porém, o extremismo radical de muitos deles os transforma em soldados perdidos numa guerra incoerente, pois que sentido faz alguém lutar para convencer os demais ao seu idealismo, sendo que isso já está previamente determinado, assim sendo imutável? Ou seja: se tudo está destinado a ser como é, até a minha “incredulidade” já está determinada e eu estou destinado a isso. Isso significa que essa é uma “briga” vã, certo? Do mesmo modo, vemos também que muitos deles são extremamente revoltados com as injustiças desse mundo e cobram punições rígidas contra elas aos nossos governantes; ora, se tudo isso é obra de Deus dentro dos seus propósitos, então estariam eles revoltados contra o próprio Deus? São esses apenas alguns fatores que, inevitavelmente, nos tentam a classificar essa doutrina como incoerente. 
    Diante do exposto pelas referências bíblicas que utilizam, com muito amor e carinho, sinto-me na obrigação de aconselhá-los à uma detalhada análise de texto e contexto buscando diferenciar situação, motivo e destino de cada parte das Escrituras. Também devo salientar que creio na salvação daqueles dentre eles, os quais não abandonam a vida de santidade confiando na predestinação, pois, inclusive os “ativistas mais briguentos” demonstram com isso grande esforço para “conquistar” a salvação.




[1]Calvinismo: Também chamado de Tradição Reformada, Fé Reformada ou Teologia Reformada, o calvinismo é tanto um movimento religioso protestante quanto uma ideologia sociocultural com raízes na Reforma iniciada por João Calvino em Genebra no século XVI. Sua principal característica é a crença de que a soberania divina determina a salvação e a condenação sem que nenhuma atitude humana possa mudar essa decisão tomada previamente.
[2]Iniquidade: Falta de eqüidade (retidão). Pecado que consiste em não reconhecer igualmente o direito de cada um, em não ser correto, em ser perverso. Erro consciente.
[3]Eleger: Escolher. Optar entre os demais. Demonstrar preferência. Selecionar.
[4]Predestinar: Escolher (Rm 8:29-30; Ef 1:5,11; 1ª Pe 2:9,10). Dar destino. Eleger.
[5]Beneplácito: Consentimento; aprovação; autorização.
[6]Redenção: Libertação.
[7]Remissão: Ato ou efeito de remir, livrar. Indulgência, misericórdia. Expiação, perdão.
[8]Dispensação: Da parte de Deus, o plano de salvação da humanidade (Ef 1:10; 3:9). Da parte do ser humano, "dispensação" é trabalho ou missão que visa à aplicação do plano divino em favor da humanidade (1ª Co 9:17; Ef 3:2; Cl 1:25).
[9]Plenitude: Estado ou qualidade do que está completo, cheio, inteiro. Totalidade.
[10]Circuncisão: Cerimônia religiosa em que é cortada a pele, chamada prepúcio, que cobre a ponta do órgão sexual masculino. Os meninos israelitas eram circuncidados no oitavo dia após o seu nascimento. A circuncisão era sinal da Aliança que Deus fez com o povo de Israel (Gn 17:9-14). No Novo Testamento, o termo às vezes é usado para designar os israelitas (Gl 2:8; Cl 4:11). Outras vezes significa a circuncisão espiritual, que resulta numa nova natureza, a qual é livre do poder das paixões carnais e obediente a Deus (Jr 4:4; Rm 2:29; Cl 2:11; Fp 3:3).
[11]Esaú: Significa “Peludo”. Irmão gêmeo de Jacó (Gn 25:25). Vendeu o direito de primogenitura ao seu irmão por um cozido de lentilhas (Gn 25:30-34). Perseguiu Jacó para matá-lo, porém mais tarde fez as pazes com ele (Gn 32:3-33:17). Foi patriarca dos edomitas.
[12]Jacó: Significa enganador. Filho de Isaque e Rebeca e irmão gêmeo de Esaú (Gn 25:21-26). A Esaú cabia o direito de Primogenitura por haver nascido primeiro, mas Jacó comprou esse direito por um guisado (Gn 25:29-34). Jacó enganou Isaque para que este o abençoasse (Gn 27:1-41). Ao fugir de Esaú, Jacó teve a visão da escada que tocava o céu (Gn 27:42-28:22). Casou-se com Léia e Raquel, as duas filhas de Labão (Gn 29:1-30). Foi pai de 12 filhos e uma filha. Em Peniel lutou com o anjo do Senhor, tendo recebido nessa ocasião o nome de Israel. Para fugir da fome, foi morar no Egito, onde morreu. Esse nome também era usado para identificar o povo de Israel (Nm 24:5). Pai de José, o marido de Maria (Mt 1:15-16).
[13]Serôdio: Pouco usual. Que ocorre fora do período normal.
[14]Evanescente: Que se pode desvanecer (desaparecer); de frágil existência. Que tende a se dissipar.
[15]Cessacionista: No cristianismo, esse termo se refere aos adeptos de uma linha teológica que não acredita na atualidade da ação de todos - ou da maioria, dos dons concedidos pelo Espírito Santo como, por exemplo: curas, falar em línguas e profecias.
[16]Monergista: Adepto do monergismo, que é um segmento teológico que crê que o Espírito Santo sozinho atua num ser humano e propicia a conversão; o prefixo grego “mono” significa “um”, “único”, ou “sozinho”, enquanto o sufixo “ergon” significa “trabalhar”. Tomando juntos significa “o trabalho de um [indivíduo]”.

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